Início > Cinema > As vantagens de ser invisível

As vantagens de ser invisível

Com o risco de parecer óbvio — sabendo que estou sendo óbvio: todo autor de cinema, seja ele bom ou ruim — eu quis dizer, seja ele Paul W. S. Anderson ou Paul Thomas Anderson; sim, W. S. é autor, sim –, todo autor de cinema, eu ia dizendo, quer encontrar a imagem definitiva e total e completa, o frame eterno, o still perfeito, para o tipo de filme que está fazendo.

John Hughes, um dos principais autores de cinema de gênero nos anos 1980, sabia disso. Por isso, congelava a última cena dos seus filmes. Ele queria tornar a finitude do longa-metragem, da película com hora marcada para começar e terminar, da cena derradeira, do gesto que acontece e desaparece — infinita.

Stephen Chbosky é o dono de As vantagens de ser invisível. Escreveu o livro, adaptou o livro e dirigiu o roteiro baseado no livro. Charlie, o protagonista de 15 anos, é tímido, deprimido e isolado e considera as primeiras experiências verdadeiras (e sociais) de sua vida como infinitas — porque únicas e, portanto, infelizmente, ele sabe disso, nós sabemos disso, também finitas, terminadas, encerradas, mas eternizadas.

Chbosky tem um carinho imenso por esse garoto, que só consegue sobreviver aos 1000 e tantos dias no colégio porque faz amizade com dois adolescentes mais velhos que ele — uma Emma Watson pós-Hermione mui convincente; e um Ezra Miller pós-Kevin incrivelmente amistoso –, já de olho no curso universitário.

O diretor presenteia Charlie com o primeiro beijo, o primeiro toque no rosto de uma garota, a perda da virgindade, a primeira bebida, as primeiras horas de larica, a primeira namorada, a primeira separação, a primeira paixão, a primeira vez em que ele olha no rosto de uma garota e ela diz “eu te amo”, a primeira vez em que ele diz um absurdo, fere essa mesma garota e depois se sente mal por isso, o primeiro mentor — um professor de inglês que lhe empresta livros. Mas qual, entre todas as primeiras coisas, é a que mereceria, num ideal hughesiano, ser congelada?

Esta:

Ele — ou ela, Sam (Emma) — de braços abertos, recebendo a brisa da noite de Pittsburgh na cara, engolindo o ensino médio inteiro, engolindo todas as primeiras coisas — engolindo também os traumas da infância, o sentimento de culpa pela morte de uma tia que era tão próxima a ele, os apagões mentais assustadores, os anseios da vida pós-Sam e pós-Patrick (Miller).

Este é um filme teen/coming of age vitaminado com tudo o que seus pares têm de legal e previsível — a trilha pop, os Smiths, os jogadores de futebol americano, as vítimas dos jogadores de futebol americano, os nerds e os punks et al. Com o bônus de ser, também, (1) um drama potente, visceral, algo patológico sobre a memória, e (2) um charme nas suas intenções de reviver (e recriar) os anos 1990.

Chbosky não congela imagem nenhuma. Mas, felizmente, filma as tais primeiras coisas não como ritos de passagem, e sim como instantâneos infinitos — quer você tenha uma mente frágil ou não. Para ser mais coerente com Charlie, lembro que: para ele, os stills, os filmetes, as imagens congeladas eternas e fundamentais e primevas e belas e fortes são: cartas a um amigo anônimo — a um Charlie do futuro, a um Charlie desmemoriado, cansado, aborrecido (?).

As vantagens de ser invisível (The perks of being a wallflower, EUA, 2012, 103 min). De Stephen Chbosky. Com Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller. 3.5/5.

Anúncios
  1. outubro 24, 2012 2:34 pm às 14:34

    Gostei bastante desse filme, dessa história!
    Tanto que estava esperando o que vc ia escrever sobre ele…
    Fiquei apaixonado pela maneira de contar a trama – e um tanto mais apaixonado pela Emma Watson. Como vc destacou, não é apenas um filme adolescente. É maduro, com conjunção das vidas dos personagens que só adicionam potencial à história.
    Quero ver de novo. Agora com estes outros olhares que vc adicionou.

    • felipelahm
      outubro 24, 2012 2:37 pm às 14:37

      Legal, Caio. Valeu pela visita!

      O filme é uma graça. Também quero ver de novo, até para apurar melhor meu entendimento dos personagens — da própria Sam, por exemplo, que, dos três, me parece a mais complexa e enigmática.

      🙂

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: