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Moonrise Kingdom

Aí embaixo, reproduzo meus pitacos publicados hoje no Correio Braziliense sobre o novo filme do Wes Anderson, o imensamente hypado Moonrise Kingdom. Soou como o mais acessível da carreira dele, e um tanto repetitivo — cenografia à Steve Zissou, com Bob Balaban imitando o Bill Murray daquele filme, sobras das rusgas familiares de Tenenbaums, e uma sensação geral curiosa, de uma compilação de Rushmore e Meu primeiro amor. Acho que é por aí.

É 1965, e um órfão de 12 anos fugiu do acampamento de verão dos escoteiros Cáqui, organizado numa ilha isolada (e inventada), ao nordeste dos Estados Unidos. No meio do caminho, encontrou uma garotinha igualmente deslocada do mundo. E os dois, apaixonados há cerca de um ano, agem como um casal mirim, planejando abandonar a ilha — e, logo, o passado aborrecido, habitado por famílias neuróticas. É a primeira vez que Wes Anderson, o diretor de Os excêntricos Tenenbaums (2001) e outros bons filmes sobre solitários e sujeitos cheios de manias e hobbies, tenta levar seu cinema estranho e cômico ao terreno imaginário da infância, das primeiras descobertas e escolhas. E, para a sorte de novos e velhos admiradores, Moonrise Kingdom dá certo.

Sam Shakusky (Jared Gilman) perdeu os pais, não se dá com a família adotiva e toma a decisão de sair do convívio dos escoteiros, liderados por Randy (Edward Norton). Na verdade, o desaparecimento do garoto vem sendo premeditado há algum tempo. É que, do outro lado da ilha, que mais parece um subúrbio americano de classe média, bem cuidado e colorido, vive Kara Hayward (Suzy Bishop), uma menina tão impopular quanto Sam: ela tem três irmãos, não se entende com os pais — Laura (Frances McDormand) e Walt (Bill Murray) —, passa o tempo observando tudo a distância com um binóculo e, para piorar, é um tanto esquentadinha e abrasiva. Em miúdos: alma gêmea do pequeno aventureiro. “Sou um corvo”, diz ela, num flashback que mostra Sam invadindo o camarim de uma peça sobre Noé e depois perguntando que pássaro ela representa com aquela fantasia tão sombria.

As únicas pessoas que se importam com o sumiço de Sam são Randy e Sharp (Bruce Willis), o oficial de polícia da ilha. Uma mulher que se identifica apenas como assistente social (Tilda Swinton) ameaça resolver a situação com uma transferência forçada a um “refúgio juvenil” — quer dizer, um orfanato qualquer.

Como em tudo já filmado por Anderson, os personagens são dispostos no cenário como miniaturas numa maquete: quase não se movem, esboçam expressões contidas e movimentos hesitantes. É a maneira rígida, pautada por uma cenografia sempre exuberante, que o cineasta sempre teve de comentar personas envolvidas em missões pessoais — do oceanógrafo vivido por Murray em A vida marinha com Steve Zissou (2004), atrás de um tubarão assassino, ao adolescente precoce de Três é demais (1998), louco de paixão por uma professora.

Em Moonrise, o diretor carrega todos esses cacoetes visuais e dramáticos para uma trama que se constrói como a mais acessível de toda a sua filmografia — mais leve até que a animação O fantástico Sr. Raposo (2009), que passa longe de ser um produto para as crianças. É uma clássica história de um garoto que conhece uma garota (em inglês, o tal boy meets girl) e, por ela, aprende a amar, sofrer e viver como um adulto — ou quase um adulto. Aliás, talvez a autenticidade de Anderson se valha de uma única tensão: a de atrair pelo bizarro, de entender os adultos como crianças — ou vice-versa — e de parecer contemporâneo por meio de uma estética do passado, arraigado na Hollywood jovial que despontou na metade dos anos 1960 e atravessou a década seguinte com títulos brilhantes. Moonrise repete o drama familiar de Tenenbaums e algo da aparência de Steve Zissou. Ainda assim, cativa por ser, num só instante, perturbado e efusivo.

Moonrise Kingdom (EUA, 2012, 94 min). De Wes Anderson. Com Jared Gilman, Kara Hayward e Bruce Willis. 3.5/5.

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