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Procura-se um amigo para o fim do mundo

setembro 1, 2012 12:35 am Deixe um comentário Go to comments

Lorene Scafaria escreveu o chatíssimo Uma noite de amor e música (2008) — um desses romances indies do tipo sou-sentimental-e-inteligente-e-tenho-bom-gosto-musical –, então não é surpreendente que sua estreia como diretora seja um filme com tom parecido, dado a pantominas indies e outras farsas sobre personagens tristes e solitários e que vagam num mundo triste e solitário (ou que eles preferem ver como triste e solitário).

Procura-se um amigo para o fim do mundo não é um disaster movie ordinário, do tipo que se vê de três em três meses tomando conta de meio circuito. Um asteroide chamado Melinda vai se chocar com a Terra daqui a três semanas, todos já sabem disso, Dodge (Steve Carell) ouviu essa notícia numa noite silenciosa, interrompida subitamente pelo anúncio de um locutor de uma rádio musical, dizendo que a última tentativa de destruição da gigante bola de fogo falhou e, bem, é isso, o mundo já não periga mais acabar — ele vai, sim, acabar. A esposa de Dodge, que aparece somente nesse único plano — o que abre o filme –, é a mulher de Steve Carell no mundo real, e ela, depois do anúncio do radialista, abre a porta sem dizer uma palavra, e dá no pé. É uma tragédia. Mas é, também, uma graça.

Eu não tinha me dado conta de uma coisa até mais ou menos a metade dessa história — a de um vendedor de seguros que custa a aceitar a fuga da mulher, que custa a atinar com o inadiável, com a falta de sentido da rotina, e que custa a entrar nessa anulação coletiva do superego, nesse pré-apocalipse movido a orgias, suicídios, vandalismos e demais taras e absurdos que vieram à tona com a aceitação da extinção da vida (um amigo de Dodge quer injetar heroína ouvindo Radiohead; me identifico em parte); após pegar de volta correspondências que ficaram com sua vizinha do andar de baixo há meses por engano e descuido, a maluquinha chamada Penny (Keira Knightley), ele lê uma carta/declaração de amor recente da sua paixão de high school e acomoda na cabeça a ideia de ser dela e ela ser dele novamente.

Eu ia dizendo que não tinha me dado conta de uma coisa, e essa coisa é exatamente o erro, o deslize que fica explícito no primeiro plano do filme e que torna todo o debut de Lorene um dramedy de tonalidades cômicas e dramáticas desproporcionais, confuso de um jeito que não soa esperto, mas indeciso. Pois bem, essa coisa é o desequilíbrio entre a angústia, o terror diante do inevitável e a leveza declarada na viagem feita por Dodge e Penny — ele vai atrás do primeiro amor, ela apanha uns discos (John Cale, Wilco, mas deixa Scott Walker no rack), larga o namorado (ou o ex) no meio das riots urbanas e, informada sobre um amigo de Dodge que tem um avião e pode levá-la para a Inglaterra, o lugar onde quer assistir ao fim do mundo ao lado da família, pega a estrada com esse estranho dez ou quinze anos mais velho que ela.

Acredito no armagedom como um evento dotado de um certo humor autodepreciativo, de um certo romantismo tardio e nostálgico em relação ao passado (de arrependimentos) das pessoas, e o filme funciona em duas ou três cenas nesse sentido — o de brincar com esse caos desértico e desolador, o de enquadrá-lo sem dar informações alarmantes sobre isso (a regra geral dos filmes de Michael Bay ou Roland Emmerich, por exemplo). Acredito: quando os personagens não me parecem apenas protótipos de pessoas que sabem rir do fim do mundo, quando a direção não burla o humor quando bem entende, em detrimento de um desfecho feito para que os casais que foram ao cinema troquem um olhar de eternidade e, em seguida, deixem seus lábios se tocarem.

Procura-se é uma versão light de Melancolia — ou uma versão ao mesmo tempo mais ingênua e ambiciosa de Um homem sério (2009), que considero o disaster movie dos Coen –, em que os personagens não estão desesperados porque vão morrer, mas porque correm risco de passar seus últimos instantes no planeta longe de quem amam — até se darem de conta, em dez minutos finais que não deveriam ter entrado na montagem, em dez minutos finais saídos de um chick flick qualquer, que se amam, ah, Deus, como eles se amam, que devem morrer olhando um pro outro.

Mas, pra uma coisa Scafaria me serviu: lembrar que 4:44 Last day on earth, o apocalipse segundo Abel Ferrara, está no hd externo à minha espera.

Procura-se um amigo para o fim do mundo (Seeking a friend for the end of the world, EUA, 2012, 101 min). De Lorene Scafaria. Com Steve Carell e Keira Knightley. 2.5/5.

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