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O vingador do futuro

Não é sempre que replico minhas críticas de jornal aqui. O motivo: é o texto que mais gosto de fazer dentro da redação; portanto, é o texto que leio com mais gravidade, severidade, angústia — não devia ter escrito isso, a defesa ficou mal argumentada, pesei a mão no ataque, esqueci de informar isso, esqueci de mencionar aquilo.

Por isso, só posto aqui as resenhas que consigo aceitar — pouco interessa o filme ou a cotação; o que importa é se, depois de escrever, ver publicado e reler, ainda posso, sem hipocrisia ou falsas negociações opinativas, concordar comigo mesmo, e lembrar das impressões de quando vi o filme, chocá-las com as impressões de horas e dias depois e obter, no final, um consenso entre esses dois espectadores, o que vê o filme e elabora sensações primevas e ingênuas e encantadas e fugazes diante da tela e o outro que, sozinho, rumina essas mesmas sensações, dispensando umas, alimentando outras.

Aí vai:

Sempre que um remake chega aos cinemas, a ânsia de quem viu o original não é outra senão a de verificar se atualizações, ajustes e remendos em história e visual agradam ou desagradam, e se os atores da vez se encaixam ou não no projeto nada autêntico de rodar novamente uma trama já conhecida. Mas este recente O vingador do futuro nem precisa ser comparado ao original, lançado em 1990, com o rosto de Arnold Schwarzenegger estampando o cartaz, para ser vítima de pedradas de crítica e público — a bilheteria mal passou da metade do orçamento de US$ 125 milhões. É precário na condição de reprise. E escasso se considerado como um título sozinho, desgarrado do passado.

Em mais uma adaptação do conto de Philip K. Dick, o autor de ficção científica metafísico e psicodélico que sempre inspira produções de Hollywood — de Blade runner (1982) a Os agentes do destino (2011) —, Douglas Quaid (Colin Farrell) canaliza medos e insatisfações de uma raça humana dividida ao meio, já no crepúsculo do século 21. Um megaelevador chamado Queda conecta — ou melhor, separa — a Federação Unida da Bretanha, hegemônica e abastada, e a Colônia, uma metrópole de favelados, trabalhadores comuns e outros tipos de renegados.

Quaid é operário de uma fábrica de robôs militares. Está casado há sete anos com Lori (Kate Beckinsale) e parece viver ligeiramente feliz. Mas o pesadelo frequente com uma desconhecida (Jessica Biel) tentando resgatá-lo de um laboratório invadido por robôs bem armados não o deixa pregar os olhos à noite. Ele, então, recorre aos serviços da empresa Rekall, que promete a fracassados e entediados as ilusões prazerosas de lembranças artificiais. É numa dessas que o protagonista, de repente, se vê no epicentro das tensões entre Federação e Colônia, acusado de apoiar o movimento rebelde, de participar de ataques terroristas e, por fim, atuar como agente duplo, usando informação privilegiada para destruir o império de lei e ordem do chanceler Cohaagen (Bryan Cranston).

Do filme de 1990, assinado por Paul Verhoeven (RoboCop), fica somente a identidade dos personagens — também esqueça a viagem de Schwarzenegger à Marte. A cenografia bizarra, artesanal, de maquiagem pesada e efeitos especiais que até motivaram prêmio especial do Oscar dá lugar a imagens digitais lavadas e foscas, numa tentativa pretensiosa de reproduzir o caos urbano de Blade runner na forma de uma distopia de referências óbvias à realidade atual — a Bretanha é a Europa violentada e em crise, a Colônia é a Ásia superpopulosa em ascensão, que periga engolir o Ocidente.

Len Wiseman (Anjos da noite e Duro de matar 4.0), o responsável pelo remake, resume as confusões mentais de Quaid em corre-corre, trocas de tiros, explosões e algumas etapas a serem concluídas, como numa versão futurista de A identidade Bourne (2002), suas sequências ou qualquer outro suspense inferior que limita a paranoia cerebral e política a cenas rarefeitas de ação.

O vingador do futuro (Total recall, EUA, 2012, 118 min). De Len Wiseman. Com Colin Farrell, Kate Beckinsale e Jessica Biel. 2/5.

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  1. janeiro 1, 2013 2:36 pm às 14:36

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