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Fausto

Fausto foi o meu filme favorito de 2011 visto em 2012 — entendeu? Aí embaixo, reproduzo crítica (e/ou declaração de amor) publicada sexta passada, no Correio Braziliense.

As primeiras cenas de Fausto devem ser as mais chocantes do cinema brasileiro em 2012. Nossos olhos começam nos céus, descem até um vilarejo da Alemanha e se embrenham no consultório do médico (Johannes Zeiler) que empresta título ao novo filme do diretor russo Aleksandr Sokurov e ao texto de Johann Goethe, prensado e publicado em dois volumes no século 19. Na casa, o homem de ciência revira as vísceras de um cadáver com as próprias mãos. Está desesperado para encontrar aquilo que se chama de alma. O doutor abre o interior de um corpo, vê e toca cada órgão, derrama sangue por todo lado, mas não obtém resposta.

Em Fausto, premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza 2011, Sokurov completa sua tetralogia sobre corrupção e poder — antes, vieram Moloch (1999), Taurus (2001) e O sol (2005). O tratamento da imagem é a primeira coisa que salta da tela. Trabalhando com o diretor de fotografia francês Bruno Delbonnel, três vezes indicado ao Oscar, Sokurov estica os limites da experimentação com o formato digital. As sequências mais parecem molduras em movimento. E várias delas surgem distorcidas, inclinadas. Não, não é defeito na cópia. É um cineasta traduzindo a tragédia pessoal de Fausto num autêntico discurso visual sobre a moral humana.

O médico é pobre, miserável. Diz que não ama ninguém. Não come nem dorme. A vida dele é sem sentido. Ter nascido foi um erro. Em troca de algum dinheiro — talvez para gastar e então aguardar a chegada da morte —, vai até uma casa de penhores e negocia um anel precioso com um desconhecido horrendo, nojento — é Mefistófeles (Anton Adasinsky), o demônio. Fausto, ainda desconfiado, vira o amigo de caminhadas do sujeito. O doutor vive preso num paradoxo: odeia a humanidade, mas arde por um conhecimento que vai além da ciência. Numa dessas andanças, conhece Margarete (Isolda Dychauk), uma jovem de gestos e modos angelicais. Logo se apaixona — cheira o perfume dela como se quisesse tateá-lo, retê-lo nas mãos como, no passado recente, fazia com as vísceras de um morto.

O golpe do anjo do mal é este: oprimir Fausto até que ele lhe venda a própria alma num pedaço de papel, num contrato eterno, que não pode ser desfeito. Sokurov constrói quadros de brilho e colorido foscos e deforma objetos de cena (de móveis a rochas e árvores), denotando um mundo de ilusão e sonho. Numa avaliação pomposa, é um cinema de monumento, de grandes temas, de religião, morte e prazer. No coração de Fausto, um cinema sobre morrer em vida, desistir mas continuar respirando, e abrir mão de si mesmo pelo amor de uma mulher.

Fausto (Фауст, Rússia, 2011, 140 min). De Aleksandr Sokurov. Com Johannes Zeiler, Anton Adasinsky e Isolda Dychauk. 4/5.

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