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Biff – Dia 6

Dia cadavérico — zumbificante/zumbificador –, este. Rapidinho, falo um pouco do sexto dia de Biff, em que vi três títulos em competição, todos de personagens em contato com a morte: o sueco Avalon, sobre o dono de uma boate que mata um funcionário sem querer, O ano do tigre, situado em 2010 no Chile, ano do terremoto, e Tey, que acompanha os passos de um protagonista preso numa fábula senegalesa a respeito do que realmente importa quando você está a alguns passos do paraíso — ou do inferno ou dum nada profundo, escuro, preenchido somente pela não-existência. Filosofemos.

O ano do tigre (El año del tigre), de Sebastián Lelio. 3.5/5

O Chile desabou junto com o terremoto de 2010. A prisão do protagonista do filme de Lelio também. Ele está livre. Esconde-se nas matas, ajeita as costas contra a parede sempre que vê passar algum carro da polícia e, pronto, tomando algumas precauções, pode viver seguro no mundo que agora o recebe com ruas entulhadas de ruínas e corpos. Não sobrou nada para ele — mulher e filha e mãe, mortas. Lelio não alivia: roda um quase documentário sobre os dias vagos e penosos do ex-presidiário. Sem fingimento.

Ele libera um tigre desconsolado duma jaula. Para um fazendeiro depois lhe contar que mirou seu rifle naquela besta e atirou nela sem dó nenhuma, que o mundo está difícil demais para alguém se importar com um bicho desses. Pois o nosso herói espera o novo amigo cair no sono — após uma noite de bebedeira e prantos gritados para o alto, em orações francas, cortantes; por essa cena, Sergio Hernández merece o prêmio de melhor ator desse festival. E estoca uma lasca de vidro na barriga do colega. O ex-detento encontra um mundo ainda temente a Deus — o mesmo Deus que mandou o país inteiro abaixo. É demais para o sobrevivente — e para o diretor. Melhor retornar para a cadeia, um mundo controlado e previsível em seus limites espaciais e humanos. E no qual Deus não entra.

Tey (Aujourd’hui), de Alain Gomis. 3/5

Há beleza nos planos fechados deste drama, nas testas reluzindo suor, nos pés rachados por extensas caminhadas, nos abraços entre amigos, nos toques faiscantes entre apaixonados. Gomis é simples na concepção de seu filme, a de um homem que retorna a cantos conhecidos do Senegal para passar seu último de vida. Este homem não tem nada de grave, aparenta ter saúde para trabalhar e viver o quanto quiser, mas, sim, ele vai morrer hoje, não há jeito de evitar isso. E o que se deve fazer nas 24 horas finais da vida? O que se pode fazer com essas últimas horas, as mais breves? As mais longas?

Para Satché (Saul Williams) — para Gomis –, deve-se voltar para casa. É a África vista no íntimo, no particular de somente uma vida e uma morte — não de um continente em sua totalidade, com seus alarmantes indicadores sociais –, vista nas coisas essenciais da existência, nos reencontos acalorados e decepcionantes, nas lembranças doídas e confortantes. Tenho pouco a dizer sobre o dia de Satché. Acho que o silêncio da sequência final encerra o assunto — e com ele a minha prolixidade.

Avalon, de Axel Petersén. 2.5/5

O plot parece muito, muito mesmo com algumas histórias de moral e culpa dos Dardenne. Petersén filma os bastidores da inauguração de uma nova casa noturna na Suécia, a Avalon. Janne (Johannes Brost), o dono sessentão do lugar, então se acha no direito de beber alguns drinques a mais, falar algumas bobagens com os convidados e, numa dessas, apanhar o carro de um amigo, dar uma volta com a irmã e sócia e — por acidente, ele não fez por mal, foi realmente sem querer, mas agora não tem como voltar atrás, está feito, matar um trabalhador lituano que, há poucos minutos, estava no andaime que Janne derrubou com uma ré imprudente.

O que se segue, como nos Dardenne — como no debut A promessa (1996), para ser mais específico –, é um novelo de sensações hesitantes do protagonista. Conto ou não conto para a namorada do funcionário que eu o matei algumas horas atrás e que, desesperado, dei um sumiço no corpo? Saio correndo antes da inauguração? Largo tudo — os problemas e os possíveis lucros — para minha irmã? Ele não sabe. Já vimos esse tipo de dilema antes, em que a atitude que sugere solidariedade — não contar, omitir para poupar o outro — é, por outro lado, desculpa para aliviar o egoísmo. Talvez Avalon valha a pena não pelo que ele tem de redundante, mas apenas pela entrega dramática de Johannes Brost. É só.

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