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Biff – Dia 5

Aqui e agora, na metade da mostra, as dores de cabeça, os olhos cansados e as sessões sonolentas aparecem para ditar o ritmo dos seus dias — e dos seus posts. Tive uma segunda-feira de Biff muito adequada para uma segunda-feira normal: isto é, de muito pessimismo e desamparo — não tem jeito, eu adoro uma autopiedade. Comecei com o filme mais triste de todo o festival, o palestino Habibi, e fui adiante, como que respirando por aparelhos, com os docs Araya, um belo clássico de 1959, e Detropia, da dupla que ficou conhecida pelo assustador Jesus camp (2006). Bora lá.

Araya, de Margot Benacerraf. 4/5

Só uma coisa separa os bons dos grandes documentários: realização de cinema. Pois este aqui dá conta muito bem das duas coisas: é crônica e é filme. Margot coleta histórias de trabalhadores de uma mina de sal ao nordeste da Venezuela e reconta cada uma delas com habilidade escritural — trilha, texto e enquadramentos dispensam entrevistas com os personagens; é na linguagem do cinema, na maneira como ela, aqui, registra e reproduz as vidas dos personagens, que estão as informações sociais e poéticas de que precisamos. Uma narração em off verbaliza o cotidiano de crianças, adultos e idosos que parecem intermináveis, eternos em seus ciclos e rondas de pesca e exploração do sal. O mar dá e tira a vida: é sustento e provoca queimaduras, úlceras devido ao contato constante dos trabalhadores com o sal.

Nada pode ser plantado nesse deserto salgado, nesse povoado habitado por gente que, a uma certa distância, parece uniforme, homogênea. Margot dá nome e identidade a essas pessoas por meio de um cinema que é solidário ao envolvimento, que entra nas atividades e enquadra corpos e pés e mãos e bocas ressecadas pelo sol e pelo sal. É lindo ver um documentário pensado no planejamento das cenas, dos movimentos de câmera. Vejo essa premeditação estética como uma espécie de respeito pelo que está está sendo filmado. Afinal, é um filme documentário. Há uma negociação com a verdade, mas também com a invenção.

Detropia, de Heidi Ewing e Rachel Grady. 3/5

Numa das várias entrevistas feitas por Heidi e Rachel com habitantes de Detroit — sempre emoldurados em paisagens urbanas amarelecidas, enjoativas, doentias mesmo –, um deles diz que é como se uma bomba tivesse caído sobre a cidade. Outro, dirigindo enquanto olha para terrenos e prédios, reconhecendo lugares — a agitação de um antigo hotel é lembrada com efusivididade — e elogiando a cidade que tanto ama, delimita os espaços antes ocupados por enormes fábricas de veículos.

Ford, Chrysler e GM faliram — e com elas, Detroit. Um downsizing diminuiu a população, as ofertas de emprego e os serviços — até as linhas de ônibus podem entrar no racionamento. Carros velhos são vistos nas esquinas. Reuniões sindicais são incapazes de evitar o fechamento e a mudança de mais um posto de trabalho — para o México. Estamos diante de um pós-apocalipse, de um pós-guerra — de uma pós-indústria. Heidi e Rachel executam uma reportagem decente, informativa e reflexiva sobre os desdobramentos da crise numa cidade como Detroit, berço da classe média dos EUA, da indústria de carros e de hipotecas altíssimas. Falando de cinema, trata-se de um filme árido, calado, que observa o momento com resignação. E uma aguda percepção de que, bem, é indiscutível, there is more coming.

Habibi, de Susan Youssef. 2.5/5

Eu seria um baita dum mentiroso se dissesse que gostei de Habibi. Enquanto exemplar de cinema, achei ingênuo, de encenações pouco convincentes e atuações brandas. Mas o que fica desse filme — e são poucos os títulos que pedem esse tipo de avaliação — é o além-filme: a coragem de Susan de rodar em Gaza — um longa de ficção não era feito lá havia 15 anos –, o carinho irrestrito pelos personagens, dois apaixonados que sabem que nunca poderão ficar juntos, e a aflição da diretora ao condensar, num caso de amor impossível, a amargura de uma nação sem liberdade — sem poesia.

Essa é a Palestina de Susan, em que um pobre poeta que vive em campo de refugiados grafita declarações de amor em paredes e é considerado profano, imoral, pecador. Em que uma jovem de classe média a quem a autonomia de escolher o que quer — quem quer — lhe é negada diariamente. Sempre tem alguém — um homem, o pai — que se acha no dever, no direito, aliás, de tomar decisões por ela. Ok, ok, no filme, isso tudo aparece de um jeito enviesado: o resultado dramático (trágico) das cenas — ou mesmo quando se toma como referência a soma de algumas sequências na montagem — nunca se equipara às intenções, ao que talvez estivesse descrito no roteiro. Não importa. Tudo bem. Esse é um filme que precisava ter sido feito. Apenas isso.

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