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Biff – Dia 4

Meu domingo começou, nesta ordem, suarento com o cubano Una noche, verteu sangue no polonês O batismo e ganhou alguma ternura no holandês Kauwboy. Mas o melhor do dia veio à noite, com o 35mm bem bonito do macedônio A mulher que escovou suas lágrimas e o indiezinho pop chamado Crianças elétricas. Let’s do this.

A mulher que escovou suas lágrimas (The whoman who brushed off her tears), de Teona Strugar Mitevska. 3.5/5

Pra mim, filme mais bem acabado do festival até agora. Teona filma no estilo que fez meu queixo cair na Mostra São Paulo 2011 diante da película de Era uma vez na Anatólia: um 35mm expandido em travellings laterais lindíssimos, filtrados por cortinas, cercas, cantos de parede, janelas, numa construção movida pela precisão dos movimentos flagrados no quadro, pelo efeito que cada plano tem sobre os personagens. Entre a França e a Macedônia, Teona roda um drama sobre a hostilidade masculina, entrevendo agressões — principalmente morais — por meio de Helena (Victoria Abril), uma agente de condicional que agora cuida do caso de um homem macedônio residente na França. Ele precisa juntar algum dinheiro, voltar para o seu país e pagar o dote da mulher com quem teve um filho há quase uma década.

O filme começa com uma tentativa de incesto e um suicídio — do filho de Helena. O marido, um macedônio que recusa falar a língua natal, também é um idiota. E o filme termina com a vitória da mulher por vias tortas — pela violência, pela irracionalidade de atos impensados. Há também algo de fantasioso nisso tudo que ainda não consegui entender — Helena e o marido viajam para a Macedônia para dar um fim nas cinzas do filho e caçar; numa das noites, o homem ronca alto na cama ao lado, Helena levanta o cobertor, destrava a apneia do marido com um chute e depois — bem, depois ela levita, algo assim. Do cinema de Teona — o da horizontalidade –, fiquei com ótimas impressões.

Crianças elétricas (Electrick children), de Rebecca Thomas. 3/5

Olha, este aqui — opening film de Berlim — nem deve ser um bom filme — um mezzo A vila, mezzo Martha Marcy May Marlene, com o humor de Pequena Miss Sunshine. Pronto, já perdi o seu respeito. Dos títulos que vi, me parece o mais pop do Biff: uma atualização da história da Virgem, em que uma menina, Rachel, que não conhece a vida fora do Jesus camp permanente organizado pelo pai, familiares e outros esquisitões mórmons no meio do Utah, engravida, veja você, ao mexer no tocafitas do pai — um instrumento para gravar confissões de pecados — e escutar uma versão cover de Don’t leave me hanging on the telephone.

Claro, o pai acha que a menina pulou a cerca, e então ela foge para Las Vegas — sem saber que está levando na caçamba Mr. Will, seu irmão em Cristo –, encontra uma banda ruim influenciada pelo Fugazi — Rory Culkin faz figuração nos shows, é tipo o Young Neil do grupo — e tenta desesperadamente encontrar o pai do seu filho, o homem que será usado por Deus para ser o seu José, o corajoso que se casará com uma menina de 15 anos que diz carregar o Messias na barriga. Achei irresistível, imaculado — me crucifique.

Kauwboy, de Boudewijn Koole. 2.5/5

Tem muita coisa de Berlim passando no festival — Bibliothèque Pascal muito me interessa — e esse Kauwboy levou o prêmio de melhor primeiro filme por lá. Posso parecer insensível e babaca, mas não vi graça na história desse garotinho que faz de uma gralha ferida por ele mesmo seu irmão, seu bicho de estimação, seu brinquedo favorito — o cinema de Koole, tomando emprestado essa estética europeia de filme frufru e adulador, os fundos borrados, as cores esmaecidas, também não me comoveu; é o filtro de um Tomboy, por exemplo. O menino passa seus dias cuidando do pássaro, falando com a mãe pelo telefone — ela é uma cantora country em turnê pelos EUA que nunca fala, nunca dá sinal de vida –, tomando bifas do pai e flertando com uma garota que masca chiclete e faz bolas do tamanho da cabeça dele. É um cinema pequeno — que, ainda bem, passa rápido em seus 81min.

Una noche, de Lucy Mulloy. 2/5

É nesses momentos que percebemos a mão da curadoria dum festival. Una noche é, basicamente, o mesmo filme que La playa pretende (e consegue) ser: um drama sobre a adolescência na América Latina, de privações, de desgostos, duma intensa necessidade de fuga. Produção UK/USA/Cuba, o produto de Mulloy extrai de história real a trama sobre dois irmãos inseparáveis desde que nasceram — a garota, apelidada de cabeluda pelas rivais da rua, é três minutos mais velha que o garoto.

Havana continua quente e comunista, mas os jovens de lá andam bem insatisfeitos. Não se pode tocar num turista ou falar com um estrangeiro, que logo vem a polícia, coloca você contra a parede e o resto é uma sucessão de socos e urros abafados. Raul, ao ferir um gringo por acidente, acaba agilizando os planos de se mudar para Miami e encontrar o pai. Os dois irmãos também já não veem futuro na cidade. Uma pena que a tal aventura — ou o prelúdio dela –, seja filmada por Mulloy de um jeito convencional, imaturo, com extensos discursos em off da garota — que vão entregando o ato final talvez sem querer — e um álbum de historietas mal contadas sobre a cidade e as pessoas que nela vivem. Uma Havava para falantes em inglês.

O batismo (Chrzest), de Marcin Wrona. 2/5

Taí. Não se pode contar histórias católicas de violência (ou de mafiosos engravatados ou de broncos que fazem negócios em frigoríficos) de um jeito natural, direto e objetivo e achar que o espectador sairá ganhando com isso — sairá mais “consciente” da vileza do mundo e outras questões que estão à margem do cinema. Se é para ser violento, que o seja com classe, por favor. Este polonês narra, com aspereza e rudeza à Gomorra, o reencontro de dois ex-combatentes do exército na semana do batismo do filho de um deles. Michal é o sortudo: casou-se com uma loira polonesa de beleza ucraniana — entende o que eu quero dizer? –, tem um filho saudável e vive num bom apartamento.

Janek, convidado para passar uma semana na casa do amigo, não tem nada disso. Ele, aliás, acaba de ser “meio” que expulso do serviço militar. Mas, veja bem, Wrona ilumina a trama metaforizando o ritual católico em outras cerimônias: a provável morte de Michal, que possui negócios pendentes com criminosos, e a iniciação de Janek, o padrinho, no mundo do crime, para salvar (?) o amigo e a própria pele. O único bom plano de Wrona é mirar o batismo do bebê por baixo, permitindo respingos sacros na lente. É pouco. Amém.

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  1. julho 16, 2012 1:28 pm às 13:28

    Bacana a sua cobertura do BIFF. Até agora não encontrei outro blog ou site fazendo o mesmo. Em geral, concordo com as suas cotaçōes, dando meio ponto a mais para Crianças Elétricas e meio ponto a menos para La Playa, mas são dois dos mais legais que eu vi até agora. Kauwboy é “bonitinho”, mas fraco. Una Noche é uma bagunça. O restante que você comentou eu ainda não vi. Abraços.

  2. Felipe Moraes
    julho 16, 2012 1:48 pm às 13:48

    Poxa, muito obrigado pela visita, Tiago.

    E, não sei se você concorda comigo, mas não apareceu ainda o “grande” filme do Biff. Estou à espera.

    Abraço 🙂

  1. janeiro 1, 2013 2:36 pm às 14:36

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