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Biff – Dia 3

Ainda tenho problemas com o formato do Biff — eu queria um braço da Mostra SP em Brasília, um painel com o melhor de Cannes, Berlim, Veneza e Sundance e, se possível, Slamdance também. Mas, pelo que vi até agora nesta primeira edição, nem posso reclamar muito. Without — falando nisso, um filme Slamdance — muito me agradou. Meu segundo favorito deste festival apareceu pra mim no terceiro dia: é o colombiano La playa D.C., que passou no Un Certain Regard de Cannes. No mesmo dia, este longo sábado 13/7, confirmei minhas suspeitas sobre Bel ami, que nem deveria estar no Biff — ainda mais em competição; entra em cartaz já, já, pela California Filmes, ora — e saí com sentimentos confusos do alemão Os esquecidos. Ao trabalho.

La playa D.C., de Juan Andrés Arango. 3.5/5

Arango, um colombiano branco, dirige um hood film situado nas ruas perigosas de Bogotá. É um drama sobre desaparecimento, sobre um irmão adolescente tentando encontrar o outro, o mais velho à procura do mais novo, um baixinho encrenqueiro, que “mexeu com as pessoas erradas”, deve dezenas de milhares de pesos a uns e outros, e não parece atinar com o perigo da vida que leva. Tomas, o mais velho, sai de casa — a mãe casou e teve um bebê com um branco –, e se aproxima de Chaco, um sujeito, um bro que fatura uns trocados deixando rodas de veículos de homens brancos tinindo, que retoca placas de carros desses mesmos homens brancos desconfiados, amedrontados de graça, por nada.

Nesta Bogotá, não se pode ser negro e andar num shopping sem ser interrompido e repreendido por um trio de policiais — dois brancos e um negro. Aqui, há material e personagens suficientes para um acerto de contas de Arango com seus espectadores brancos. Mas o diretor não é agressivo, não aponta dedos raivosos, não identifica culpados. Ele só quer contar uma história de sobrevivência, em que essa ansiedade da busca catalisa mudança e oportunidade. Chaco tem uns amigos que sabem cortar e esculpir cabelo, manejando cortador e lâmina — ser negro nesse lugar requer demarcação de território, e isso se dá pelo couro cabeludo entalhado, pela escultura no topo da cabeça, pela cicatriz temporária que avisa, eu estou aqui, eu respiro e acordo e trabalho e durmo como vocês.

Tomas vira aprendiz. Tomas flerta com uma garota branca que também corta cabelo ali perto — o elo fraco da trama; as cenas de sonho também não vingam. Tomas finalmente recupera o irmão, mas o menino já parece plenamente decidido da sua vocação — viver e morrer no submundo. Arango observa a periferia com um olhar íntimo, urgente — a câmera na mão do operador e no rosto do personagem. Não dá saída fácil, mas vê dignidade onde só parece haver perda e dureza. Arango enxerga, enquanto cineasta, cor e estilo nesse mundo.

Os esquecidos (Die vermissten), de Jan Speckenbach. 2.5/5

Mais um sobre um sumiço e um protagonista que, na precariedade da procura, acaba se encontrando. Lothar (André Hennicke, um tipo meio Christoph Waltz) cuida da segurança de usinas nucleares, tem um relacionamento estável com a segunda mulher, mas nunca revelou a ela que tem uma filha de 14 anos e que mal a viu crescer nos últimos sete. A garota evapora, a mãe não sabe o que fazer, e Lothar surta, arregala os olhos a cada esquina lotada de adolescentes, projeta, numa garota desconhecida para quem deu carona uma vez, o cuidado que sempre negou à filha: é a obsessão pelo desaparecimento — ou pela culpa que o aflige com atraso. E ele começa a perceber que outras crianças também estão sumindo.

Vejo esse colapso do personagem — um drama pessoal e universal — como uma metáfora do desarranjo econômico, de uma classe endinheirada que se vê ameaçada pelo insucesso do consumo e do capitalismo e das ilusões de poder e autoestima neles inscritos. Lothar visita uma outra geografia urbana, desagradável e espinhosa — imagino, aqui meio sonolento, uma alegoria às Alemanhas mutiladas pelo muro. Balaio de boas ideias. Mas Speckenbach resolve esses deslocamentos espaciais e existenciais com soluções simplistas de direção — o mesmo plano para começar e finalizar o filme, por exemplo. E, no geral, a chance desperdiçada de ter amplificado o ar paranoico de Lothar e do clima ligeiramente à Body snatchers. Um tanto tímido e restrito demais.

Bel Ami — O sedutor (Bel Ami), de Declan Donnellan e Nick Ormerod. 2/5

O principal defeito é não saber muito bem por que as personagens de Christina Ricci, Uma Thurman e Kristin Scott Thomas estão tão caidinhas pelo Pattinson, um soldado que serviu no norte da África e agora se estabelece em Paris como um novo rico. Ou Pattinson é um ator realmente inexpressivo, ou a persona do ex-combatente é escassamente desenvolvida. A falta de sutileza torna a rede de negociações amorosas regida por Georges Duroy (Pattinson), em que se deitar com a mulher do próximo pode significar degraus vencidos na escadaria social, um enfeite a mais, um drinque extra. Donnellan e Ormerod estão mais preocupados em acertar vestidos, maquiagens, cortes de cabelo, joias, mobília. Os flertes de hipocrisia e crueldade estão encobertos por cerimônias e cortesias — e por tecido em cima de tecido.

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  1. Nenhum comentário ainda.
  1. janeiro 1, 2013 2:36 pm às 14:36

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