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Para Roma, com amor

Ressuscito este blog com uns pitacos (desenganados, desencantados) sobre Para Roma, com amor, novo do Woody Allen, publicados hoje no Correio Braziliense.

É duro dizer isso de um filme de Woody Allen, um dos diretores norte-americanos mais originais e regulares dos últimos cinquenta anos. Mas Para Roma, com amor, seu trabalho mais recente, deve ser um de seus títulos mais preguiçosos, relaxados e condescendentes com o público. Para ele, uma comédia tranquila de se fazer — e, quem sabe para novos fãs, entretenimento irresistível. Allen, filmando na Europa mais uma vez, nem parece aquele ateu baixinho, reclamão e, por fim, romântico, que os cinéfilos e espectadores de cinema do mundo todo aprenderam a amar. Aqui, ele volta a atuar — o que não fazia desde Scoop — O grande furo (2006)— e divide a trama num quadrilátero de histórias. Acerta a mão em apenas uma delas e, no todo, reprisa a atmosfera farsesca que fez de Meia-noite em Paris (2011) seu maior sucesso de bilheteria (US$ 151 milhões arrecadados no planeta).

Nas vinhetas, que felizmente nunca se cruzam, Allen utiliza o absurdo para fins cômicos. Se em Paris, o personagem principal zanzava por calçadas cintilantes e de repente viajava no tempo, dando de cara com intelectuais do passado, em Roma, o artifício é ainda mais efusivo. Isto é: empolga como chamariz estético e falha na condição de elemento narrativo.

Em dois dos segmentos, Allen emoldura italianos. Claro, do seu jeito, como se estivesse enquadrando nova-iorquinos: cínico, mas carinhoso. Satiriza a cultura de celebridades ao infernizar a vida de Leopoldo (Roberto Benigni, de A vida é bela), um “famoso por ser famoso”. Ele é um cidadão comum que, sabe-se lá por quê, desperta interesse de supermodelos e dos paparazzi. Já na saída de casa, uma multidão de repórteres o aborda com perguntas ridículas (“o que comeu no café da manhã?”, “o que tem a dizer?”). Nada mais adequado para o diretor, tão avesso às cerimônias do Oscar.

Noutro momento, um jovem e ingênuo casal se hospeda em Roma para tratar de negócios. Milly (Alessandra Mastronardi) se perde e é atraída por Luca Salta (Antonio Albanese), estrela de cinema. Antonio (Alessandro Tiberi), sem querer, é forçado a considerar uma sexy prostituta (Penélope Cruz) sua mulher, por conta de um contato inesperado com empresários. Narrativas leves, de desencontros e enganos divertidos: um Allen excessivamente confortável. Ele, aliás, é quem protagoniza a historieta sobre um ex-produtor de música clássica e ópera, que fracassou várias vezes por ser tão “à frente do seu tempo”. Está com a esposa em Roma para conhecer o noivo da filha e encontra o pai do futuro genro, um agente funerário e cantor de ópera amador (Fabio Armiliato, prestigiado tenor), que só consegue soltar a voz no chuveiro.

O único conto que funciona, que lembra o melhor do cineasta, é o que reúne duas personas masculinas, do passado e do presente, estranhando e amando a Roma que escolheram para viver. John (Alec Baldwin), arquiteto de shopping centers, retorna à cidade. E, numa rua de Trastevere, topa com Jack (Jesse Eisenberg), estudante de arquitetura que mora na capital com a namorada, Sally (Greta Gerwig). Monica (Ellen Page), melhor amiga dela, chega para virar tudo do avesso. John, aqui e ali, invade a trama como um personagem imaginário, que alerta Jack sobre os truques sensuais da visitante. A carta de amor de Allen a Roma é escrita com talento, mas procura o elogio fácil. Talvez seja hora de voltar para Nova York. E não sair mais de lá.

Para Roma, com amor (To Rome with love, EUA/Itália/Espanha, 2012, 102 min). De Woody Allen. Com Jesse Eisenberg, Ellen Page e Woody Allen. Cotação: 2/5.

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  1. julho 11, 2012 12:40 am às 0:40

    Felipe, parabéns pela resenha. Para te falar, Allen nesse tour Europeu tá mais para tiazona em vista à Europa com a CVC do que um curioso backpacker. Mas, ele mesmo se diz muito inclinado aos clichês e estereótipos . Deus nos salve de uma vista cinematográfica dele ao Brasil. Se ocorrer, será bossa nova e Niemeyer pra tudo que é canto…

  2. julho 11, 2012 12:44 am às 0:44

    *Visita

  3. felipelahm
    julho 11, 2012 1:08 am às 1:08

    hahahaha Concordo plenamente com você!

    Valeu pela visita 🙂

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