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O que eu mais desejo

Koichi, com um celular amarelo encostado na orelha, conversa com o irmão dois, três anos mais novo, Ryu. E Hirokazu Koreeda, o diretor, o “pai” desses dois, desenrola uma linha imaginária (para os dois) e real (para o público) que religa vozes, gestos, papos. É o único momento, digamos, infantil, mirim — mas ingênuo e singelo de propósito — dum filme crescido, que ri, mas não gargalha, sofre, mas não chora.

O que eu mais desejo é uma crônica sobre a infância de dois garotinhos que vivem separados um do outro há alguns meses, por conta do divórcio de pais jovens — um músico meio preguiçoso, uma mulher de empregos irregulares que vive com mãe e pai. Os quatro moravam em Osaka. Hoje, residem cada um no seu canto, Koichi com a mãe, ao sul, em Kagoshima, Ryu sob a guarda do pai, ao norte, em Kyushu — na vida real, eles são irmãos mesmo, os Maeda.

E o único que parece sentir falta de Osaka é Koichi, um garoto quieto, manso, que olha para o vulcão em atividade e fica indignado com a tranquilidade das pessoas. Ele queria mesmo é que a montanha explodisse de vez, que todo mundo saísse dali, que ele voltasse para Osaka com irmão e pai e mãe.

Solução mais plausível vem em aula de ciências, em que ele ouve dois colegas dizendo que quando dois trens-bala se cruzam em sentido contrário, o espaço entre eles gera energia tal que, se alguém estiver por perto e mentalizar um desejo, o pedido é atentido. Entre uma coisa e outra, a conversa ouvida sobre linhas de trem mágicas e a aventura a caminho da estação, Koreeda talha, lentamente, vidas distantes, mas conectadas, apesar das diferenças entre os dois — Ryu é uma formiguinha atômica –, por amiguinhos que escutam e opinam, perguntas e dúvidas parecidas, por uma amiga (de Ryu) que quer ser atriz e tem inveja de uma colega que faz comerciais pra tevê, por um amigo (de Koichi) que só pensa em se casar com uma das professoras, rodadas de pedra-papel-e-tesoooooura, migalhas do fundo de salgadinhos chips. Cada telefonema deixa os irmãos mais perto um do outro, alguns metros mais próximos do trilho, da estação, do encontro.

É mesmo encantador, suave, sem exageros, clímax trágico ou acidental — pensei que nem Koichi, no vulcão arremessando lava sobre famílias inteiras — ou outros golpes típicos de melodrama — a trilha, em vez de melecada de cordas, é um country rock quase todo instrumental. Não é um filme-milagre — Koreeda é um pouco prolixo, inunda o miolo de assuntos paralelos que ele não consegue concluir mesmo com 2h08 de tempo de tela. Nem um filme que atrai com truque ou magia. O espanto, aliás, é por ser tão descaradamente natural — com o bônus de contar a melhor piada sobre indie rock já feita na história do cinema.

O que eu mais desejo (Kiseki, Japão, 2011, 128 min). De Hirokazu Koreeda. Com Koki Maeda, Ohshirô Maeda e Ryôga Hayashi. Cotação: 3.5/5.

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