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The blackout

Não conheço a filmografia do Ferrara o suficiente para cravar, com alguma certeza, com argumentos convincentes, quais filmes dele são underrated as hell. Pelo pouco que vi na mostra dedicada ao cinema dele no CCBB, sei que quase tudo do homem é subestimado, largado, marginalizado, malvisto, malcriticado. Esse Blackout me parece especialmente ignorado (deixo minha cotação em 3/5, 67/100 como provisória, já que o filme cresce na minha cabeça enquanto escrevo sobre ele).

Li muitas críticas reduzindo esse filme a uma suposta má escalação de Matthew Modine no papel principal, de um ator fatigado de Hollywood que cheira carreiras como quem mal consegue colocar ar nos pulmões e se entrega ao álcool como quem precisa engolir água minuto a minuto para aplacar a dor nos rins — reviews reducionistas, estes. Matty, o tal ator, muda-se para Miami. Annie (Béatrice Dalle), sua namoradinha francesa, está grávida, Matty, bêbado, high, pede-lhe que tire o filho, que ele só quer casar com ela e dormir com ela pelo resto da vida. Mas ela aborta. Ela tem medo do casamento, e mais medo ainda desse homem que anda babando pelos cantos e vive de uma fama já meio decadente. Matty não guardou o pedido na memória.

Matty é amigo de um diretor de cinema pornô, Micky, papel que Dennis Hopper interpreta bem até demais com suas falas mais altas que as de todo mundo, seus fuck you, get the fuck outta here (ou variações do mesmo tema) gritados com a agressividade de sempre. Aqui, o overacting é necessário.

Ferrara e sua câmera bêbada e inconstante como Matty seguem esse sujeito numa noitada com Micky, e Matty conhece uma garçonete de ar colegial chamada Annie (Sarah Lassez), e Micky, um obcecado pelo grão difuso do VHS — o próprio Ferrara parece mui interessado pelo VHS, pelas limitações das câmeras de segurança e da imagem borrada de lentes amadoras; esse fetiche retorna timidamente em Go go tales (2007) –, Micky dirige e filma Matty cercando a Annie 2 de 17 anos por todos os lados.

Dezoito meses depois, Matty está em Nova York de cara limpa, cabelo bem aparado, com uma loira-padrão-playmate do lado (Claudia Schiffer). O protagonista de Ferrara é como um ator que se esquece das falas logo que a câmera é desligada. Micky, um ano e meio antes, enquadrou o filme que queria: um thriller erótico real, em que um sujeito desmemoriado não sabe se a garota que tem à sua frente é a Annie real ou a Annie que conheceu há pouco — Micky nunca conseguiria tanta verdade, tanta humanidade como naquela noite –, e esse homem maluco — um ator interpretando outro ator — mata duas mulheres a um só tempo, numa só cena, num improviso tão espontâneo quanto a vida.

Ferrara resume tudo no plano que mostra uma câmera sozinha, de perfil, a luzinha vermelha indicando que sim, tudo está sendo gravado, que sim, o assassinato não é ensaio de mais um filme tosco de Micky — ele que confunde erótico com errático –, que a morte é real mesmo quando parece antecipada, dirigida, sugerida, manipulada. A morte no cinema, ou a morte num cinema captado em vídeo, é real. Ferrara joga cenas em VHS aqui e ali, mas o seu comentário vai além de um simples experimento. Quando ele ousa colocar a película a serviço do vídeo, quando ele filma o vídeo, filma a tevê, sem querer, ou por querer, converte uma coisa na outra, Modine em Matty, Hopper em Micky, Ferrara, ele mesmo, em Micky. O vídeo não tem dailies. O vídeo (hoje, penso no digital e em Caminho para o nada) começa e termina no vídeo.

Blackout parece uma crítica a Boogie nights (também de 1997): no filme de Paul Thomas Anderson, há filmes sendo rodados, atores sendo dirigidos, mas PTA não quer manipular os sets; Ferrara, pouco interessado em falar da indústria XXX — porque Ferrara não quer saber de indústria, seja ela de LA ou San Fernando Valley ou Miami –, entende de outra maneira o valor do VHS para o pornô. Blackout é o seu filme de processo — aqui, um belo artigo sobre isso.

Quando Matty, não sabendo se matou Annie 1 ou 2, pede para ver os dailies, os malditos dailies — as névoas azuladas do VHS, na verdade –, as lembranças explodem na cabeça dele. Ele matou uma garota de 17 anos chamada Annie. Micky filmou Matty matando uma garota de 17 anos chamada Annie. Ferrara filmou a câmera de Micky filmando Matty matando uma garota de 17 anos chamada Annie. São tantas as camadas, tantas as gradações, que Matty, por fim, encerrando os dois filmes num só — o de Micky e o de Ferrara –, mergulha nas ondas do mar, nadando para lugar nenhum, dando braçadas violentas para morrer sozinho, longe de Micky, longe da luzinha vermelha.

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  1. brunoamato
    maio 3, 2012 1:54 am às 1:54

    “filmes dele são underrated as hell”

    Os fãs de Ferrara costumavam ser pequenos, mas fervorosos. Impressão que tenho – pois são memórias da época em que comecei a ser cinéfilo – é que até o fim dos anos 90 Ferrara era tido como um diretor curioso, um bom diretor de atores, chegado a um escândalo, e só. Ao menos nos círculos cinéfilos mais amplos e de suposto bom gosto. A partir dos 2000, talvez a partir de Mary, a idéia de Ferrara como um grande cineasta parece ter crescido e se tornado mais aceita, alguns filmes dos anos 90 parecem ser lembrados de forma mais gentil, etc.

    Mesmo assim a distribuição dos filmes dele continua uma coisa complicada e acho que no mundo todo. No Brasil, os filmes dele parecem chegar apenas por causa do assunto: Mary, sobre religião, veio e Napoli Napoli Napoli, sobre a cidade, idem. Já Go Go Tales, sobre uma casa de striptease, não. Aliás, falando em underrated, Go Go Tales tem uma das maiores cenas finais de um filme do Ferrara, um monólogo de Willem Dafoe que fez platéias no Rio e SP aplaudirem no cinema.

  2. felipelahm
    maio 3, 2012 10:08 am às 10:08

    Poxa, muito legal a contextualização, Bruno.

    E essa última cena de Go go é demais, mesmo. Pra mim, melhor momento do Dafoe no cinema.

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