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O porto

Durante a sessão de O porto (3/5, 64/100), recente trabalho (francês) do finlandês Aki Kaurismäki, eu só conseguia pensar numa coisa: em certos desdobramentos do filme, essencialmente uma trama simples sobre um ex-artista que trocou Paris pela Normandia e, por ocasião da fuga de um garoto africano da vigilância da alfândega, é tomado pela necessidade de ser solidário com o amiguinho, pensei, “bem, este roteiro bem poderia ter sido escrito pelos irmãos Dardenne”. Elaboro (rapidamente).

Afinal, vê-se na tela um drama social cercado de pressões sentimentais — um velhinho e um menino — e morais — para o velho, abrigar o novo visitante e fazê-lo chegar a seu destino, Londres, podem significar encrenca com a polícia, um certo descaso com a esposa doente e, por fim, um esgotamento inevitável da dignidade que lhe resta; ele próprio, um andarilho autocomiserativo e conformado com a vida que leva, acredita que sua esposa só é sua esposa por um laço de piedade, não de amor. Quase posso imaginar os Dardenne perseguindo engraxate e imigrante em planos sufocantes, céleres, vividamente intensos. Aqui, porém, importa perceber como as questões de forma são mais relevantes que a história que o diretor pretende contar. Os Dardenne contam, desfiam, narram, comentam. Kaurismäki sonha e realiza.

Ele imprime às cenas uma estética (corajosa) do ingênuo, o que é comum em sua obra: como Chaplin em suas comédias mais doces, Jarmusch em seus takes mais galantes e (Wes) Anderson em suas esquisitices, o cineasta forja um mundo só seu, fechado em planos estáticos (no estilo quadradão da Hollywood dos anos 1930; trilha sonora e travellings também são empréstimos dessa década), pintado com uma paleta de cores desbotadas, amarelecidas (o contrário de Anderson; embora em tonalidades diferentes, as cores têm função narrativa nas duas filmografias), desenvolvido no ritmo de um não-tempo, num não-lugar, localizado numa não-nação (lembro Daunbailó, de Jarmusch).

Kauri engendra uma seriocomedy leve — talvez leve e branda em excesso –, cravada das manias de sempre — os personagens ouvem discos, vão a um showzinho de rock clássico — e organizada, eu diria, com um misto arriscado de obstinação pictórica e carinho paternal pelos tipos filmados — entrevejo um ventríloquo dublando sua marionete. Cativo das limitações (e obsessões), mas, a seu modo, único.

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