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Poder sem limites

Quando penso em filmes do subgênero (ou protosubgênero, diria um cético) found footage, minha mente projeta imagens granuladas, instáveis, preguiçosamente enquadradas, histórias que começam como diários desinteressantes, ordinários, e geralmente terminam abruptamente, num corte seco, após uma sucessão de ágeis (e inexplicáveis) eventos sobrenaturais. Poder sem limites (4/5, 85/100), produção UK/US do estreante Josh Trank, ainda que seja um título obediente às regras, inesperadamente renova o estilo (o protoestilo). E continuo a babação: é uma obra-prima do cinema found footage. É sério.

Sim, pois (1) não é mais um filme de terror com espíritos ou monstros que não podemos ver — e olha que tenho respeito (e tremor & temor) por A bruxa de Blair e REC e não vejo problema em gostar de Cloverfield e Atividade paranormal –, (2) o trabalho de câmera é equilibrado entre um flagrante amador e uma narrativa bem cuidada em (uma quase) terceira pessoa, (3) os personagens têm motivações, problemas reais, ou melhor, poderes reais, e não estão apenas correndo de sombras gigantes, sussurros produzidos em quartos escuros ou tomando sustos com portas batendo, assoalhos de madeira crepitando e demais efeitos sonoros domésticos assombrosos.

Andrew Detmer (o ótimo Dane DeHaan [parece nome de Jedi, né?], do seriado In treatment, que baixei e nunca assisti) é o adolescente-tímido-do-subúrbio-que-não-tem-namorada-e-não-vai-a-festas. Ele filma as 24 horas dos seus dias para sua própria proteção — e também porque parece obcecado pela rotina de ligar a câmera, registrar sua reações frente à brutalidade do pai, ao bullying dos colegas de escola, às cheerleaders do time de futebol e depois assisti-las sozinho, no computador do quarto. O pai é um bombeiro sequelado, foi ferido num resgate ou algo do tipo e agora passa o dia em casa, cuidando (precariamente) da esposa doente e entornando à beça.

A única companhia do garoto é Matt (Alex Russell), um cara metido a bonitão e intelectual, que cita Jung numa festa para impressionar uma blogueira; ela, num quesito, é igualzinha a Andy — vive e filma tudo que vive. Andy foi forçado a sair de casa pra tal balada com Matt — afinal, é ele quem tira o menino de casa todas as manhãs e lhe dá carona pra escola; dizer não poderia complicar os estudos. Mesmo lá, ele está com a câmera na mão (e talvez com alguma ideia sombria na cabeça). Após cometer uma bobagem — capturar o rebolado de uma garota comprometida com as lentes; ele leva um soco –, ele foge da horda de baladeiros, senta-se no gramado, isola-se numa névoa de choro e autocomiseração.

Eis que aparece Stephen (Michael B. Jordan, outro ator de seriados), o garoto mais popular do colégio, candidato à presidência do grêmio (é claro, o nome do ator que o interpreta é Michael Jordan, caramba). Ele diz algo como, “ei, cara, você precisa filmar isso”. Andy hesita, mas vai. No destino, uma clareira atrás da floresta que margeia o endereço da festa, reencontra Matt. Há uma abertura estranha no chão. Os três entram. O buraco emite ruídos, as imagens começam a falhar. Eles estão diante de uma estrutura brilhante, um neon azul-turquesa. A câmera rodopia. Urros, gemidos.

No plano seguinte, Andy, Steve e Matt parecem jovens integrantes da escola de mutantes do Professor Xavier, testando poderes de telecinesia com uma bola de beisebol. Eles assustam uma garotinha num hipermercado, fazendo um ursinho levitar no ar, aceleram o carrinho de compras de outra cliente, e até provocam um grave acidente (Andy, no caso), jogando um carro morro abaixo — por sorte, salvaram o motorista. Dias depois, eles mesmos levitam, voam a Mach 2 — vi o filme da segunda fileira de poltronas e posso dizer, com precisão, que eles alcançam Mach 2 fácil, fácil –, jogam futebol americano entre as nuvens — Stephen grita o nome de Tim Tebow, o QB-mito do Denver Broncos.

Andy controla a câmera acima da cama com os olhos semicerrados enquanto tenta dormir. Andy é sinistro. Andy consegue belos planos. Andy, para colocar um fim nisso, é um super-herói que não sabe lidar com seus talentos (aqui, cabe a lição do Homem-aranha, grandes poderes blá, blá, blá), que vai criar um clímax à Akira neste Poder sem limites.

Não espero ver profundos e pesados dramas humanos num found footage, mas este aqui é realmente especial: um coming of age autêntico, com extasiantes alegorias dos sofrimentos e angústias da adolescência — “o filme tem algo de Carrie”, bem me avisou o superoito, há uns três dias. Poder sem limites é o melhor filme de 2012 até agora (na lista de melhores de 2012, só conto títulos de 2012 lançados em 2012; Drive é de 2011) — e eu quero que ele fique no topo até 31 de dezembro.

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  1. Nenhum comentário ainda.
  1. janeiro 1, 2013 2:36 pm às 14:36
  2. abril 29, 2013 3:37 pm às 15:37

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