Início > Cinema > A guerra está declarada

A guerra está declarada

Eu poderia secionar A guerra está declarada (2.5/5, 57/100) cirurgicamente ao meio e esboçar reações diferentes a cada par de cenas vistas: uma delas mostra um casal que encara o câncer do filhinho com alguma leveza, sem o peso emotivo de um mórbido drama hospitalar — aqui, é preciso lembrar, o pior exemplo de melodrama deste tipo atende por As mães de Chico Xavier; a seguinte, ou a anterior, flagra uma diretora, Valérie Donzelli, preocupada em fazer de seu drama pessoal uma rearranjo da nouvelle vague, com ingênuos — mas não inocentes — gracejos estéticos.

Juliette (a própria Donzelli) e Roméo (Jérémie Elkaïm) formam um casal tipicamente inspirado pela nouvele vague: eles trocaram flertes numa festa, depois nomes — Romeu e Julieta, sinal de tragédia a caminho –, depois beijos. Eles vestem roupas moderninhas, exibem rostos alegres mas com algo de irônico e lascivo, e parecem estar em sincronia o tempo todo: como num quase musical (ou num falso musical), olhares, diálogos e movimentos ocorrem em completa sintonia, guiados por uma trilha sonora colorida e simpática, lotada de timbres eletrônicos ora esparsos, ora dançantes. Eles estão vivendo a vida, fumando cigarros, saindo com amigos, bebendo drinques, rindo à toa, beijando estranhos, passeando no parque como se estivessem num filme em separado; no filme “real”, triste, agonizante, são pais de um filho com poucas chances de vida (10%, para ser exato; a criança tem câncer rabdóide, uma modalidade agressiva da doença).

Adam chora mais que os outros bebês, vomita o leite que acabou de tomar, demonstra enorme dificuldade em dar os primeiros passos. Há algo de errado com ele. Os primeiros exames não clarificam muita coisa. Depois que uma médica reconhece uma leve assimetria facial — o lado direito da bochecha é inchado e quando ele ri os lábios se comprimem de maneira tortuosa –, Juliette parte para Marselha com a babá (uma Björk 20 anos mais nova). O menino tem um tumor no cérebro. A jovem mãe corre pela seções do hospital até desmaiar. O pai cai de joelhos no chão e urra de dor.

A descoberta do câncer é um evento que ocorre em paralelo ao início da Guerra do Iraque. O garoto é durão, resiste ao tratamento, mas os pais passam os dias num processo incurável de isolamento. Eles terminam o filme destruídos e (spoiler a seguir), ainda que separados, assistem à vida do filho com esperança no peito e uma inabalável consciência de que devem sempre pensar no melhor: a situação já é, sozinha, séria e crítica demais, não precisa de comentários acompanhados de frases graves, solenes; Donzelli sabe disso, claro, então dispensa cenas longas e gratuitas de choro e ataques histéricos; e também rejeita o drama convencional de corredores de hospital, tomados de diálogos que soam como meros prontuários e boletins médicos.

Gosto da naturalidade das cenas de sofrimento e desespero — cortes rápidos, planos urgentes –, mas reprovo a tentativa de elipsar alguns desses instantes narrativos com breves videoclipes inspirados na nouvelle vague: num deles, por exemplo, os dois batem palmas e surgem na tela duas taças e uma garrafa de champagne; em outro, eles cantam uma canção como se estivessem no trecho mais melancólico de um musical sobre um casal jovem que luta para se manter junto frente ao tumor do único filho. (Ailás, o filme é isso mesmo.)

Tem algo de único, particular — afinal, Donzelli leva para a película uma dor real –, mas carece de dicção, voz, mão. Dele (do filme) e dela (da diretora), fico com a sinceridade.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: