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Drive (de novo)

Sim, de novo. Drive já apareceu no blog outras vezes (aqui e aqui), mas aproveito a estreia no Brasil para divulgar um pequeno jabá, replicando minha crítica (a primeira 5/5 oficial, jornalisticamente oficial) que saiu hoje no Correio Braziliense.

Segue:

O personagem de Drive aparece em cena quase o tempo todo. E, ainda assim, quando o filme termina, não dá para dizer com certeza quem ele é. Primeiro: Ryan Gosling, do recente Tudo pelo poder, interpreta um protagonista sem nome. Ele somente dirige. Segundo: quando não está na oficina de Shannon (Bryan Cranston), reparando veículos alheios, empresta suas mãos tranquilas e firmes ao trabalho de dublê de títulos de Hollywood. Terceiro: às vezes, ronda pelas ruas quentes de Los Angeles com bandidos nervosos no banco de trás. Portanto, mecânico, motorista de fitas baratas de ação e piloto de fuga. Não parece, mas Drive é, sim, um grande filme.

O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, da trilogia Pusher e de outros pesadelos masculinos, como Bronson (2008) e Medo x (2003), adapta um livro homônimo, escrito por James Sallis, com um refinamento que falta à maioria dos filmes de ação — por aproximação, fica o exemplo da franquia Velozes e furiosos. A trama de Drive é simples de entender. Mas o acabamento, que deu a Refn o prêmio de direção no último Festival de Cannes, é um escândalo de luxo e sedução no uso da linguagem do cinema. Hollywood, coisa absurda, preferiu louvar apenas a edição de som, indicada ao Oscar.

O herói é de falas sucintas e olhares demorados. Ele conhece uma vizinha igualmente tímida, Irene (Carey Mulligan), mãe do pequeno Benicio (Kaden Leos). Standard (Oscar Isaac), pai do garoto, está na prisão. Após ser liberado do cárcere, é lembrado de que deve um bom dinheiro aos sujeitos que o protegeram durante o cumprimento da pena. O protagonista é um condutor e tanto, e Shannon, que manqueja devido a uns probleminhas arranjados com Nino (Ron Perlman), mafioso disfarçado de dono de restaurante, convence o endinheirado Bernie (Albert Brooks, indicado ao Globo de Ouro) a investir (US$ 300 mil) numa possível carreira de piloto profissional do sujeito vivido por Gosling.

Pois bem, em meio ao cotidiano lotado de atividades, o motorista, mesmo interessado em Irene, se oferece para ajudar Standard a conseguir a grana de que precisa para se livrar dos criminosos. A trama sobre um solitário misterioso evolui para um suspense intempestivo, de temperamento noir — a moça loira, o herói metido em perigos desconhecidos. Refn empacota dois roteiros em um só, numa projeção de luzes esparsas e sombras coloridas de vermelho e rosa. Tudo parece saído de um filme de “macho” confuso e exagerado dos anos 1980, algo como uma atualização de Taxi driver (1976) dirigida por Michael Mann (Fogo contra fogo). E é isso mesmo que o torna tão enigmático e atraente.

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