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A visita cruel do tempo

fevereiro 19, 2012 12:33 pm Deixe um comentário Go to comments

Não dá para comparar a prosa de Liberdade, a precisa saga contemporânea da alma americana de Jonathan Franzen, à de A visita a cruel do tempo (4/5), a crônica parte punk rock, parte revolução digital de Jennifer Egan. O espírito de reflexão memorial (e geracional), porém, é parecido.

Ler Jen é como ler um Franzen menos barroco: a autora não é irônica nem sarcástica, mas redige parágrafos velozes, diálogos apressados. Ela ambienta seus personagens num período equivalente ao de Franzen (não parece, mas Jen começa mais tarde e vai mais adiante). Todos cresceram mais ou menos na mesma época e lugar, a San Francisco do final dos anos 1970 — numa narrativa que pressente um futuro próximo sinistro e plausível, em que até bebês empunham seus gadgets.

Bennie, ele próprio ator e espectador da onda punk do oeste, é um protagonista arrasado — e arrastado — pelas lembranças. Foi de uma banda da época, o The Flaming Dildos, que nunca vingou. Adulto, dirige um selo “vendido”, o Sow’s Ear, instalado em Nova York. Antes de “trair” a boa música, produziu coisas boas, como o Conduits — Bosco, o vocalista, era mais incendiário que Iggy Pop.

Dá para saber muita coisa de Bennie em poucos capítulos. Jen firma arcos narrativos concisos, que não aparentam ter conexões tão óbvias: a estrutura é multifocal (as linhas do tempo estão aqui esticadas), secionada em linhas do tempo e em vozes de uma porção de gente — em primeira ou terceira pessoa, em slides do Power Point (o melhor do romance), em esqueleto de artigo jornalístico; os estilos são tão variados quanto a quantidade de episódios.

Sasha (spoiler a caminho), a assistente de Bennie, é quem começa e termina o livro, por exemplo. Foi uma jovem maluquinha, chegou a se aventurar em Nápoles, trabalhou para a gravadora de Bennie, teve seus momentos como crítica de música em trabalhos para Spin e outros veículos. E, veja só, depois de anos, torna-se uma mulher “madura”, de família.

A galeria de personagens deixa uma (boa) sensação de incompletude. Deixa a leitura, aliás, igual à cabeça atribulada de cada biografado, como quando ficamos surpresos ao encontrar um velho amigo e, infelizmente, temos a certeza de que ele não é a mesma pessoa de antes — mesmo que o visual ainda seja familiar e obsoleto, há uma estranha polidez na primeira troca de palavras, um desconforto seguido de resignação –, e que esse esbarrão, hoje, não significa lhufas; abre-se uma fenda no tempo, um esforço de memória levanta sentimentos esquecidos, conversas escondidas, mas ambos sabem, e não dizem, não ousam dizer, que a amizade acabou (de forma não oficial, sem um adeus triste ou uma ruptura violenta), mas nos dois permanece um filme (mental, sentimental) inacabado e inesquecível.

 

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan. Intrínseca, 336 páginas.

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