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Vida de solteiro

fevereiro 15, 2012 7:41 pm Deixe um comentário Go to comments

Ontem, vi Vida de solteiro (2.5/5, 58/100), longa que eu precisava — “precisava”, como se o diretor fosse o maior artista vivo, note — assistir para completar a filmografia (irregular) de Cameron Crowe. É apenas o segundo filme dele e, ainda assim, aqui ele já entrega o jogo, o truque, o maneirismo dos filmes (tenho que dizer de novo, irregulares) que faria após 1992. Penso que Alexander Payne não é lá um grande diretor, mas ele faz quase o mesmo que Crowe, só que com personagens menos largados, em filmes com ritmo bem cuidado do começo ao fim  — é preciso dizer que Crowe escreve roteiros originais (Picardias estudantis, script dele de 1982, me parece especialmente cool, pré-Gen-X; luta por um lugar ao sol nos meus torrents), enquanto Payne adapta livros que dizem ser bons.

Vamos lá. O que Payne tem de parecido com Crowe? Na decoração e no temperamento, quase nada: Payne tem um jeito bem sutil de tornar a narrativa uma espécie de memorial, é solene mesmo quando pretende elevar o volume dos diálogos cômicos; Crowe procede como um jornalista (ele é/foi um jornalista) diante das histórias que filma e, por isso, adota um tom meio maravilhado, deslumbrado — e, por fim, demorado, moroso. No exame paciente (e nem sempre interessante) de personagens masculinos e suas ansiedades (carreira, mulheres), quase tudo.

Em Vida de solteiroSingles, o título original, serve tanto para “solteiros” quanto singles musicais, acho eu –, Crowe tenta subverter a objetividade do debut, o adorável Digam o que quiserem. Os personagens, solteiros orgulhosos (mas apaixonados convictos), dão meia volta e falam com a câmera na introdução de cada história: truque típico de antologia moderninha, neste caso desnecessário.

O filme reúne contos de um grupo de jovens — faixa etária de uns 20 e poucos até quase 30 –, alguns deles morando no mesmo complexo de apartamentos, de Seattle, bem na época da ebulição do grunge — a trilha sonora é a melhor compilação de gemas grunge de todos os tempos; tem até John Coltrane e outras coisas não-grunge. Sigamos.

Em especial, Crowe observa as vidas de dois casais: o arquiteto Steve (Campbell Scott) e a ativista ecológica Linda (Kyra Sedgwick, na época bonita, muito mais bonita que a Julia Roberts), a ingênua Janet (Bridget Fonda) e Cliff (Matt Dillon), bandleader da Citizen Dick, uma arremedo (hilário) de banda.

O pai de Steve saiu de casa quando ele tinha oito anos. Ao largar a família, o velho disse: “Have fun, stay single”, a premissa de Singles. Mas Crowe tenta ser tão leve, tão macio, confortável e agradável, que o tal lema — proto-niilista (não sei o que isso quer dizer, apenas ficou bonito na frase) –, o tal estilo de vida “divirta-se, fique solteiro”, perde-se pelo caminho.

A mão do diretor é pesada (e observe que ele tenta ser leve etc) na condução da comédia — só dá para rir de Dillon imitando um roqueiro imbecil dando entrevista, de Dillon se recusando a ler reviews do disco de estreia da banda — e hesitante  no drama — depois de apresentar as histórias individuais, os cruzamentos são todos forçados, e o filme não soa tão diferente dessas antologias românticas ridículas de dia dos namorados e outras datas sentimentais.

No todo — o final é moralista, trai o título, mas fiquemos nisso –, é o tipo de filme de falsa grandeza (em alguns momentos, ele abraça uma grandeza de videoclipe) que ele repetiria em Elizabethtown e no recente Compramos um zoológico. Crowe é bom de mixtape, mas ruim de narrativa.

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