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O artista

Admito. Entortei o nariz, revirei os olhos e torci o pescoço de desconforto bem antes do buzz pré-Oscar direcionado ao queridinho O artista (3/5, 62/100), lá atrás, no festival de Cannes, quando os reviews mais animados colocavam o tributo de Michel Hazanavicius e seus amigos franceses ao cinema mudo como uma obra-prima, um filme que resgata a alma verdadeira da película — e eu fico me perguntando se existe uma única e real alma do cinema, e o que é a essência do cinema e outras questões esotéricas inúteis. Elogios espantosamente contraditórios — pois nenhum desses críticos, nem o mais velho deles (nem o eterno Andrew Sarris), viveu o cinema mudo.

E quando saiu a notícia de que a espertinha The Weinstein Company havia adquirido o filme — a mesma distribuidora que fez o esquecível O discurso do rei vencer A rede social no Oscar passado; fiquemos apenas com este caso recente –, aí a minha desconfiança evoluiu para a seguinte conclusão: o Oscar é deles de novo.

Pois então, vi O artista — num desses screeners de DVD que dá para achar nos torrents. Um filme tecnicamente impecável. Tecnicamente. Até o roteiro pode ser definido como tecnicamente impecável — coerente com a história do cinema e com o próprio subgênero de filmes sobre filmes.

O ano é 1927. George Valentin (Jean Dujardin) é um astro do cinema silencioso — o George Clooney do cinema mudo. Bonitão, talvez talentoso — Dujardin não interpreta um ator mudo, mas caricaturiza um ator mudo — e rico. De manhã, antes de sair de casa para mais um dia de gravação, mal troca palavras com a mulher. Ela lê o jornal, concentra-se em devorar a primeira refeição do dia. Ele age com igual indiferença. Fora dali, porém, é um homem feliz — sorri desembestadamente: parece mandar mais que os diretores e ser mais poderoso que o próprio dono do estúdio (o sempre expansivo John Goodman).

Diante de repórteres e fotógrafos, manda beijos, dá tchauzinhos, provoca suspiros nas fãs. Num dia, a desconhecida Peppy Miller (Bérénice Bejo) deixa a carteira cair à frente do cordão de isolamento que separa as fãs de Valentin. Espremida entre dezenas mulheres e um guarda emburrado, ela acaba caindo ao lado do ator. Ganha um abraço carinhoso. Beija-o no rosto em retribuição.

E pronto. No dia seguinte, a cena está na primeira página da Variety. E Peppy, uma dançarina de sapateado, vê a manchete como oportunidade de entrar no mundo do cinema. Faz testes, é aprovada e, de repente, está escalada como figurante em filmes de Valentin.

Dois anos depois, 1929 — ano do crash –, o império de Valentin está em ruínas. O cinema falado invadiu os estúdios, os executivos estão à caça de novos talentos, e o público perdeu o interesse em caretas e lábios abafados por diálogos escritos na tela e longas trilhas sonoras. Agora, o silêncio de Valentin só pode ser ouvido por ele mesmo. O povo quer a falante Peppy.

Hazanavicius (spoiler a caminho) insere apenas duas cenas com áudio — uma cheia de ruídos e outra com diálogos. No resto do tempo, ele homenageia o cinema mudo da maneira mais correta — mais oscarizável — possível: isto é, copiando o cinema mudo em todos os seus (óbvios) aspectos estéticos. A trilha de intermináveis movimentos e ricos floreios dramáticos, as atuações de olhos esbugalhados, sorrisos largos, gestos generosos.

Valentin começa como um homem de pose inquebrável — ele é o sucesso encarnado em gente — e, pouco a pouco, vai perdendo o brilho. Tenta ser seu próprio chefe, gasta dinheiro do próprio bolso e arrisca-se como produtor e diretor de mais um filme mudo. Fracassa. Peppy é a musa do novo cinema. Pelo que dá para notar nos bastidores das produções que protagoniza, não é boa atriz. Porém, basta articular a mandíbula na frente de uma câmera. Milhões pagarão ingresso só para ouvi-la.

O cinema que Valentin conhecia e sabia fazer tão bem ficou no passado — passado tão recente que se confunde com o presente. Um drama que os votantes da Academia vão considerar uma obra de arte. Afinal, é um filme francês — para muitos americanos, francês é o adjetivo adequado para qualquer coisa de bom gosto; a mulher francesa, a literatura francesa, a arte francesa, o cinema francês — sobre uma Hollywood que não existe mais. Eles adoram esse saudosismo.

É bem provável que os americanos respondam à homenagem — e, veja bem, esta não é uma homenagem oficial, protocolar, acho eu — com algumas estatuetas douradas. De fato, O artista combina bem com a atmosfera pomposa (e meio decadente) do Oscar, o desfile de famosos no tapete vermelho, a celebração em torno dos vencedores, o espírito de camaradagem entre ganhadores e perdedores. A Hollywood de hoje deve se enxergar como uma evolução (em 3D) daquela vista em O artista.

O Oscar 2012 premiará — tenho 90% de certeza — uma espécie de remake de um filme que nunca foi produzido, uma imitação bem feita, bem executada, bem produzida de um cinema extinto — essencial, belo, mas superado; Cantando na chuva praticamente encerra o debate lá em 1952. Hazanavicius exuma esse cinema em uma perfeita leitura técnica do que foi a era muda. Ok, entendi o tributo. Vejo muito respeito, muita cerimônia, muitas boas intenções nele — e pouca originalidade, pouca releitura, pouca interferência. Pouca arte.

Leone não fotocopiou o faroeste — ele remontou o gênero de novo segundo suas próprias regras. Tarantino não dobrou os joelhos perante Leone, Kurosawa, o noir, o blaxploitation, o grindhouse e mais um bocado de linguagens — ele remontou e misturou e parodiou os gêneros e estilos segundo suas próprias regras.

Em O artista, Hazanavicius quebra as leis em duas oportunidades — interrompe o “encanto” como que dizendo, “ei, estamos em 2011, sacou? isto é uma homenagem”. No mais, faz seu discurso com segurança, muito charme, sem desagradar a ninguém. Então, aplausos para ele.

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