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Carnage

Não sei dizer se Carnage (3/5, 68/100) é um filme ruim com ótimos atores ou um filme mediano que, alavancado por ótimos atores, engana com eficiência. Polanski adapta a famosa peça da Yasmina Reza (Le dieu du carnage), que eu nunca vi e talvez nunca veja porque não gosto de peça, e compõe o elenco com um quarteto incrível de intérpretes — Kate e Jodie estão no Globo de Ouro na categoria comédia/musical; Michelle Williams deve levar, mas eu torço pela adorável Kristen Wiig.

Pois então, nesta comédia ácida, de selvagens e velozes diálogos, o diretor polonês encontra espaço para suas observações sobre crueldade e violência — tão viscerais e universais — numa trama simples, ambientada num apartamento bem decorado do Brooklyn, que não passa de 79min de duração. É um filme menor dele. Mas ainda é um filme dele.

Os Cowan, Alan (Christoph Waltz, sempre hilário) e Nancy (Kate Winslet), estão de visita à residência dos Longstreet, Michael (John C. Reilly) e Penelope (Jodie Foster). O motivo: durante uma discussão no parque, o filho dos Cowan acertou o rosto do filho dos Longstreet com um generoso galho de árvore — ou um pedaço de madeira, agora não me lembro direito. O menino perdeu dois dentes incisivos e teve mais alguns ferimentos — novamente, não me lembro direito.

E os pais do vilão estão no apartamento da vítima para conversar (amigavelmente) sobre o ocorrido, quem sabe encontrar um jeito maduro, pacífico, gentil — adulto — de resolver as contendas entre os garotos. Eis a delicadeza da situação: Michael é um sujeito passivo (passivo-agressivo, na verdade), e procura mitigar o caso. Para ele, o rebento dos Cowan foi cruel, mas o que se passou foi nada mais que uma briguinha infantil entre rivais. Penelope é extremamente sentimental, e parece justificar sua fragilidade com seu interesse de pesquisadora nas artes plásticas e no sofrimento dos povos africanos.

Do outro lado, Alan e Nancy formam um casal ainda mais controverso. Alan interrompe a discussão quase que minuto a minuto para tratar de uma história que vazou na imprensa sobre o Antril — ele é advogado da corporação farmacêutica e passa a tarde delegando ordens para subordinados do celular, ditando notas para releases de imprensa, lidando com os primeiros movimentos de uma crise que se anuncia como muito grave. Nancy é investidora — veste-se como tal — e, curiosamente, irrita-se com o excesso de trabalho do marido. Na verdade, nem dá para dizer com certeza se ela posa de boa esposa ou se ela é tão hostil e rude quanto o homem com quem se casou.

Dá para rir bastante das ágeis argumentações de um lado — o da vítima, ora amigável, ora venenoso — e de outro — o do algoz, ora desinteressado, ora conciliador — e notar claramente a costura dramática de Polanski: sem maquiar os desvios morais de cada família — o que só reforça o satirismo do roteiro –, ele confronta os interesses egoístas de dois casais “perfeitos” (héteros, brancos, ricos) que, rapidinho, largam a educação dos primeiros cumprimentos e se lançam numa furiosa e nervosa batalha de discursos misantropos. Uma carnificina verbal daquelas.

A volta do Polanski sufocante da trilogia do apartamento? Nem tanto. É, por outro lado, um Polanski contido — na linha do sutil thriller O escritor fantasma –, que tem enfrentado a velhice e a reclusão com filmes cada vez mais irônicos e sóbrios.

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