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Cavalo de guerra

Quando saíram as primeiras imagens de Cavalo de guerra (3/5, 65/100), confesso que me diverti bastante cá com meus pensamentos maldosos. Para o meu azar, demorei alguns dias para atinar que o material era do novo filme do Spielberg, o entertainer responsável por alguns dos (vários) filmes — pelas bobagens? sim, pelas bobagens — mais importantes da minha vida.

E eis que nesta listinha, para alguns risível de tão clichê, para mim essencial, desfilam coisas como E.T., Jurassic park, Tubarão, Os caçadores da arca perdida, A.I. e, mais tardiamente, meu favorito de todos, Contatos imediatos de terceiro grau. Voltemos ao lançamento.

Cavalo de guerra, como todos os filmes do homem, é um baita de um exagero: 146min de uma saga ambientada na WWI, em que um cavalo bonito e indomável passa de herói de uma família inglesa — treinado por um jovem de olhares e gestos deslumbrados, ele ara a terra e salva a pele dele e dos seus pais — a sobrevivente de um conflito mundial.

Nesta grande novela formatada para o público Touchstone/Disney — o que significa dizer que não há sequer um pingo de sangue –, o cavalo conhece um bocado de gente: após morar na fazendinha do pobre garoto, ele é vendido a um oficial britânico assim que a guerra começa. Depois, muda de front e é cuidado por dois gentis irmãos alemães — que falam inglês.

Uma garotinha francesa — que fala inglês — e seu avô também são honrados com a presença do animal. Nosso herói, de novo, é capturado pelo front inimigo. Foge, trota entre tiroteios de trincheiras americanas e alemãs — (alerta spoiler) por causa dele, um soldado americano vira amigo de um alemão. Até aqui, mesmo sem ter visto o filme, você já sabe qual deve ser a última parada do protagonista.

Spielberg é mestre em narrar pequenas histórias de abandono e, também, melodramas (históricos) para emocionar milhões, bilhões. Sabe, como poucos, humanizar (dramatizar) personagens não humanos. Aliens, dinossauros, um tubarão que pouco vemos na tela, um robô que mais parece gente. E, agora, um cavalo perdido que é mais importante que os batalhões de soldados, que as rivalidades entre nações e mais uma porçao de fatos importantes que, quer saber, pouco importam para Spielberg e seus espectadores.

Esses sessentões/setentões da Nova Hollywood andam nostálgicos — levam a Velha Hollywood, e não a Nova Hollywood, para dentro dos seus filmes. Scorsese rodou O aviador com a pompa de um filme dos anos 1930. Ilha do medo, como um noir dos anos 40. Não vi Hugo, mas é claramente um tributo (em 3D) às origens do cinema. Spielberg filmou a última aventura de Indy Jones como se estivesse nos anos 1980 — não à toa, meteu o bedelho em Super 8 e Gigantes de aço, duas aventuras com cara e coração da década perdida.

Cavalo de guerra, e muita gente já disse isso por aí, lembra a época em que Hollywood estava descobrindo a cor e as possibilidades do scope: a historinha que ele quer contar pode ser (e é) ingênua demais — aqui, ele força a barra mesmo –, mas os planos têm a seriedade e o compromisso de um John Ford. Spielberg enquadra seus personagens em locação, mas usa fotografia e iluminação de estúdio. Tudo (belamente) antiquado.

Talvez eu tenha sido enganado por meia dúzia de cenas estonteantes, pela inocência quase irritante dos personagens — é incrível como, em todo filme do Spielberg, as atuações me parecem sempre caricaturas dóceis, propositalmente mansas e infantis –, pelo retorno do Spielberg choroso de A.I. Na verdade, eu sempre fui enganado por ele — e muito bem enganado.

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