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Margin call

dezembro 21, 2011 5:58 pm Deixe um comentário Go to comments

Os engravatados desse Margin call (3.5/5, 75/100; competidor em Berlim, melhor primeiro filme pelo NYFCC e NBR) só pensam em dinheiro, números, ativos, lucros, perdas, recuperações — mesmo quando a situação não exige afirmações de ganância e ambição, eles só falam nessas coisas.

Numa cena significativa, dois deles, Peter (Zachary Quinto, também produtor) e Seth (Penn Badgley), estão sentados atrás do balcão de um bar, esperando dar de cara com um superior, Eric (Stanley Tucci), que foi demitido naquele dia, uma quinta-feira nervosa, com gente saindo do departamento de risco com caixas de papelão nas mãos, feições caídas, passadas tensas. O egresso deixou, nas mãos de Peter, um pen drive com um projeto inacabado. “Tome cuidado”, disse ele, ao entregar os documentos ao subordinado.

Voltemos ao bar. Os dois estão com drinques próximos das mãos. Diante dos olhos, strippers arrastam os saltos-escadarias (o termo estranho que uso aqui parece português-pt, peço perdão) pra lá e pra cá, as pernas levantadas, cabelos esvoaçantes — artimanhas pouco sensuais, porém. A câmera de J.C. Chandor, diretor estreante, não dá a mínima para as moças. Elas são meras molduras enquadrando a conversa dos dois jovens analistas. “Quanto ela deve fazer por noite. Uns US$ 500?”, pergunta Seth. O papo termina, os dois consentem em US$ 2 mil.

De volta à firma, a descoberta de Peter, que ficou no escritório até altas horas (after hours) fuçando os rascunhos de Eric, mostra-se alarmante — um dos primeiros abalos da crise financeira que massacraria a economia global em 2008, ano em que o filme é ambientado. O saldo do trabalho extra: ele constatou, num levantamento histórico de compra de ativos, que o banco de investimentos está em queda vertiginosa e, portanto, irrecuperável, há meses; o valor total da empresa representa apenas 25% do rombo. Uau.

Numa jornada de tensas reuniões, a cadeia de chefes — Will (Paul Bettany), chefiado por Sam (Kevin Spacey), chefiado por Cohen (Simon Baker), chefiado por Tuld (Jeremy Irons); e tem a Sarah (Demi Moore), mas não sei muito bem onde ela se encaixa –, constata o perigo. E toma uma decisão crítica: Sam, há 34 anos na companhia, precisa vender, até o meio da tarde do dia seguinte à pesquisa de Peter, todos os ativos aos investidores; em outras palavras, significa: o “feirão”, somado a mais uma rodada de cortes, pode salvar a empresa, mas, por outro lado, o ridículo preço das ações vai destruir a confiança dos investidores.

O pré-apocalipse de Chandor é rodado com luzes fortes, localizadas mas descoloridas — gráficos, telas azuis, lâmpadas que parecem oprimir funcionários e chefes, fotografia externa impenetrável, com verdes escuros; lá fora é uma selva — e, numa frieza que lembra o Tony Gilroy macambúzio de Conduta de risco, despreza o didatismo. Ou seja, passa longe de, digamos, uma dramatização do doc Trabalho interno.

Isto é, se o Oliver Stone dos dois Wall Street esparrama-se num discurso apaixonado contra o mercado de ações, Chandor é mais objetivo — o que não significa ser puramente matemático: não há praticamente nenhum diálogo explicativo, pontuados de fórmulas, equações ou difíceis termos econômicos. Não há cerimônia nenhuma: essa meia dúzia de entendidos de números, tão decisivos para o futuro de bilhões, não exprimem pânico diante de ações imobiliárias que não valem sequer um centavo — um dinheiro que não existe.

Eles já estão de saco cheio de saber que os dólares vão e vêm. Um colega é promovido, o outro é cortado. Um enlouquece, outro se joga de um edifício, e um terceiro torra a poupança em drinques e prostitutas. A crise derruba meio sistema. Mas eles, ou clones deles, continuam pendurados nos telefones, vendendo e comprando títulos. As contas bancárias do mundo inteiro estão nas mãos desses desconhecidos. E, bem, a gente não parece se importar muito com isso.

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