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A alegria

dezembro 9, 2011 11:53 pm Deixe um comentário Go to comments

(Perdi a sessão de A alegria aqui no Festival de Brasília de 2010; mas a projeção de hoje, minha primeira no primeiro dia de funcionamento do Espaço Itaú, foi demais: vi sozinho, sem ninguém na sala.)

O apocalipse está chegando. Os noticiários já anunciam o “início das dores” — para usar um termo que aprendi na minha infância/adolescência judaico-cristã: revoltas urbanas, confrontos entre civis e policiais nas ruas, barbáries e outros convulsões sociais que apontam mesmo para o fim de tudo, o colapso do mundo como o conhecemos. É nesse pré-caos — sentido, visto e ouvido de um apartamento mediano no bairro do Catete, Rio — que Luiza, 16 anos, vive. E ela já anda meio de saco cheio disso tudo.

João, o primo da nossa heroína de A alegria (3.5/5, 72/100 — isso, agora temos duas cotações), segundo longa da dupla Felipe Bragança e Marina Meliande — sim, heroína, já que este é um filme de super-heróis –, pois bem, o primo dela desapareceu. E depois deu as caras de forma meio misteriosa — respira, fala, anda, mas exibe um ar fantasmagórico –, com um um tiro no pé. Na parte rasa de um rio, ele e um amigo ensaiavam, fantasiados, movimentos de uma coreografia um tanto tosca. Até que um tiroteio, ouvido de longe, se abateu sobre os dois. O colega, coitado, morreu ali mesmo. E agora Luiza esconde João no apartamento — pai e mãe estão separados, e a mãe, meio perdida com a situação, precisando de um lugar só pra ela, busca conforto na residência da mãe de João. Os personagens são meio duros no começo — Tainá Medina, a Luiza, demora a se soltar. Mas, quando consegue, o filme deslancha numa fantasia de tom ora plácido, ora tenso, e de diálogos que fluem como poesia.

Luiza anda por aí com três amigos da escola — um gay, o namoradinho e a maluquinha Marcela (Flora Dias, a lindinha de A fuga da mulher gorila). Como uma equipe de heróis, eles firmam uma espécie de pacto, usando máscaras comuns, dessas de papelaria mesmo; cada um conta o que gostaria de ser, quais poderes gostaria de ter. Luiza, que certa vez disse que Ipanema (e o Rio todo) seria varrida pelo mar, quer ser um monstro marinho. E os nossos heróis agem como arruaceiros/revolucionários (“a alegria é a minha política”, diz Luiza), matam aula, apostam corrida no meio da mata — numa escapada, Luiza ganha um anel do namoradinho encontrado numa oferenda a São Jorge –, saem às ruas do centro com uma faixa (“Seu mundo acabou. Foda-se. Vai embora”), bebem litros de cerveja e urram bobabens no sereno — aliás, essa coisa de se embebedar e falar besteira (de língua de fora etc) é tipica das personas de Bragança/Meliande; tem cenas assim em A fuga; entendo essas sequências como flagrantes de pura jovialidade (afinal, há uma certa imbecilidade na felicidade, não é?).

Eles são indomáveis. Enquanto o mundo parece impassível —  “tem muita gente quieta no mundo”, a garota diz ao pai. João dá o fora — gargalhadas diabólicas acompanham o seu trajeto de reconciliação com a ex e o filho pequeno. Mas então, o quarteto fantástico, que depois da descoberta dos “poderes” também cai na estrada mas, como crianças perdidas e com medo do desconhecido, voltam rapidinho, o quarteto é capaz de tirar o mundo da apatia? Esses meninos doidos, esses olhos que enxergam mágica quando não parece existir mágica nenhuma, essas consciências afetadas pelo álcool — mesmo quando não estão comprometidas pela bebida, parecem destemperadas –, essas bocas que não dizem coisa com coisa?

Bragança e Meliande criam um raro cinema teen — do qual talvez o público teen não entenda um frame sequer –, que liga um texto poético (mesmo quando é pretensiosa, a poesia é bonita) a uma narrativa folclórica. Por outro lado, a direção leva a trama um pouco a sério demais — pra muita gente, isso é/vai parecer risível, e é um defeito que vez ou outra endurece as atuações e silencia a pulsação de algumas cenas –, mas não erra ao querer ser vibrante, ao querer, como Luiza, atravessar paredes.

Logo depois ou algumas cenas depois do ritual das máscaras, os quatro estão sentados no chão da cozinha (a foto acima), a geladeira aberta como uma tentativa de aplacar o bafo atmosférico do verão carioca. Luiza diz que deseja somente ser alegre — não estúpida. A alegria, ela continua, “é como uma febrinha, sabe?”. Hoje, não sei o que é isso. Quando tinha uns 15, 16, acho que sabia — senti saudades da minha adolescência; inédito, isso. Acho que sim.

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