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Martha Marcy May Marlene

dezembro 5, 2011 11:00 pm Deixe um comentário Go to comments

Martha May (Elizabeth Olsen), a heróina de Martha Marcy May Marlene (3.5/5), fugiu de uma comunidade rural estranhíssima localizada no estado de Nova York, nas Catskill Mountains. Lá, existe uma espécie de seita machista com ares de camaradagem hippie: as mulheres só podem comer depois dos homens, e sempre depois do anoitecer; a sobrevivência depende de agricultura; se a safra é fraca, o sustento vem de uma inexplicada venda de cobertores no centro e, bem (spoiler a caminho), atos de delinquência em casas vizinhas. Ela ligou para a irmã de um orelhão, com uma voz embargada e resignada — sem jeito, na verdade; ela pede ajuda, mas o pedido de socorro mal pode ser escutado. Agora, aparentemente, a caçula está segura no casarão da irmã Lucy (Sarah Paulson), que divide o espaço, à beira de um enorme largo e rodeado de vegetação cerrada, com o marido Ted (Hugh Dancy), um arquiteto inglês meio babaca. O pior parece ter passado.

Até que, de repente — depois do prelúdio que mostra rapidamente o cotidiano da seita e a escapada de Martha –, Sean Durkin, diretor estreante do longa, começa a entrecortar a vida da jovem com cenas de um passado recente de brutalidades (sexuais e comportamentais) e de um presente de frágil sanidade. Martha May não sabe distinguir lembranças de sonhos. E a narrativa vai-e-vem acompanha a paranoia progressiva da jovem com travellings intrusivos e uma trilha sonora que equivale ao canto impassível de uma cigarra escondida no sereno. MMMM (melhor direção em Sundance; exibido no Un Certain Regard) é um drama psicológico com tonalidades de um suspense neutro, à Haneke — com solavancos de filme de terror. (Falando nisso, lembrei que Olsen está no remake do bom A casa, o uruguaio-de-um-plano-sequência-de-80-e-tantos-minutos.)

O líder do tal culto é Patrick (John Hawkes, o ator indie obrigatório de personagens psicopatas), um cara malvado e raquítico (as feições esqueléticas são assombrosas), que acolhe uma nova mulher com a seguinte reserva: se ela quiser viver em comunidade, na cabana democrática onde moram moços e moças, ser “purificada”, ela tem que abrir a guarda. Explico: ficar mais relaxada, esquecer a vida antiga, a família — no caso, a mãe morreu, do pai nada se sabe, Lucy foi para a universidade e Martha passou um tempo com uma tia, antes de desaparecer completamente dois anos antes do reencontro com a irmã — e entregar seu corpo ao prazer “edificante” de uma noite com Patrick.

A nova família parece (parecia) mais verdadeira que o esboço da família de sangue que ela sempre teve — ou mesmo a que ela tem atualmente, com uma Lucy curiosa com esse passado que vez ou outra acorda Martha à noite, que a faz tremer de medo e chorar sem explicação racional. Lucy não entende nada. Mas Martha, à maneira de Patrick, que a chama de Marcy May porque acredita que ela tem rosto de Marcy May — e, só para completar o título, todas elas atendem o telefone dizendo ser Marlene –, aprendeu a viver — a cozinhar, a respeitar os homens, a plantar e comer o que planta — e descobriu a vocação de “professora e líder” por meio dos rituais desumanos em Catskill.

O final ríspido — muita gente odiou, muita gente amou; não achei assim tão frustrante ou brilhante, mas apenas coerente — interrompe os devaneios febris e as recordações recalcadas de Martha sem cerimônia. Um corte seco, e pronto. Aliás, interrompe, não. Indica, talvez, um reinício — ou, finalmente, uma catarse, uma solução. Que a finitude do cinema não nos permite conhecer.

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