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A separação

novembro 25, 2011 8:52 pm Deixe um comentário Go to comments

É sempre estranho notar o que os cinéfilos — e não cinéfilos — costumam eleger como grandes filmes, às vezes movidos pela recepção dos críticos, às vezes pelo selo de prêmios importantes. Ou pelo buzz. (Eu faço parte deste circo, adoro ser enganado por um buzz maneiro, que nem este em cima de Hugo, do Scorsa. Já vejo, sim, um grande filme passando na minha cabeça de fã do homem.)

Acho que é o caso deste iraniano A separação (3.5/5), que praticamente levou o Festival de Berlim todinho pra terrinha (Urso de Ouro, melhor ator e atriz e mais uns dois). E, na minha simplória opinião, o rebento de Asghar Farhadi está longe de ser uma produção além de boa, relevante, comovente e outros clichês destinados aos bons (só bons) títulos. No IMDb, quase 18 mil votos, 8,6 de média, e posição 151 (neste momento) no top 250 do portal.

No Irã dos dias atuais, Simin (a linda Leila Hatami, na foto), que carrega no corpo um jeito de mulher de fibra, gestos inequívocos, andar decidido, quer largar o país com o marido, Nader (Peyman Moaadi, a cara do escritor português Gonçalo M. Tavares), e a filha, Termeh (Sarina Farhadi). Mas o sujeito, que dedica seu tempo livre para cuidar do pai, debilitado pelo Alzheimer, é contra a mudança. Simin, volto a dizer, uma mulher imponente, então pede o divórcio e sai de casa — com ou sem a filha.

E Nader já não tem mais quem cuide do seu velho homem — e isso tudo já é quase metade de um filme contido, sóbrio, que nunca se desfaz em DRs longas ou coisas do tipo. Mas, quando Razieh (Sareh Bayat), a empregada contratada por Nader, entra na trama, Farhadi é obrigado a dramatizar um pouco as coisas: o marido da mulher tem lá os seus problemas com dívidas, porém, orgulhoso, não aceita que a ela trabalhe, ainda mais na casa de um homem doente. Há um impedimento religioso nisso tudo: o contato físico de Razieh com o velho, por mais que seja solidário — levá-lo ao banheiro, dar-lhe remédio na boca –, é pecaminoso. Um problemão para Simin.

Gastei dois parágrafos com sinopse e agora já me esqueci dos argumentos — se eu de fato tinha algum relevante para justificar minhas ressalvas. A separação me pareceu um pouco amarrado pelas impressionantes três atuações principais — do casal e da empregada –, o que não é completamente ruim: elas garantem uma segunda metade mais, penso eu, comprometida com as delicadezas morais que o diretor quer discutir (e, para não entregar um madilto dum spoiler mas já liberando um deles, não, a religião não produz nem metade dessas questões delicadas; os tratos silenciosos entre as pessoas, aqui , falam mais alto).

E, é óbvio, o final é ambíguo — mas não vago. O desfecho só faltou vir acompanhado de um aviso do tipo “estamos aqui para levar todos os prêmios neste festival”. Vale lembrar que o Oscar adora essas coisas — e o filme é o candidato do Irã à estatueta de título estrangeiro.

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