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Precisamos falar sobre o Kevin

novembro 20, 2011 12:49 pm Deixe um comentário Go to comments

Quando vi os primeiros teasers e li as primeiras críticas (não muito entusiasmadas, mas mesmo assim elogiosas) de Precisamos falar sobre o Kevin, o filme de Lynne Ramsay que competiu em Cannes, logo lembrei daquele livro da Intrínseca que de vez em quando eu encarava nos montes de “mais vendidos” de livrarias por aí. E lembrei também que ele sempre me pareceu um best-seller meio perdido no meio de sagas vampirescas, melodramas policiais e demais títulos de ficção — as novelizações de personagens históricos, como esses romances ambientados no Egito antigo, me deixam dividido entre a folheada curiosa e a folheada cínica, acompanhada de um sorrisinho no rosto.

Enfim, dei todo esse rodeio só para copiar um trechinho do romance de Lionel Shriver, que muito me angustia a cada página virada. O livro reproduz cartas de Eva Khatchadourian, a mãe de um assassino à moda Columbine — chacinou sete colegas, uma professora e um funcionário da escola onde estudava, em Nova York — endereçadas ao ex-marido, Franklin, um americano robusto, um nacionalista incontido. Eva é o contrário do homem: antes da sangrenta quinta-feira, em que Kevin escreveu com dedos frios mais um capítulo tenebroso da história de violência juvenil nos EUA, ela viajava a cantos exóticos do mundo, para depois elaborar guias de viagem.

Shriver desfia um thriller suburbano vergastado de um remorso sincero e uma ironia autodepreciativa. Numa América de pretensões não menos que messiânicas, um punhado de garotos entediados como Kevin, que matam com a frieza de um adulto hostil e experimentado na maldade, desnudam uma ordem familiar e social perfeita — crianças saudáveis, pais endinheirados, churrascos dominicais — e insegura. (Curioso é notar que a publicação original foi em 2003, mesmo ano do devastador filme pós-Columbine de Gus Van Sant, Elefante.)

“As carnificas cinematográficas só são difíceis de engolir, se, em algum nível, a pessoa acreditar que as torturas estão sendo infligidas nela. Na verdade, é irônico que esses espetáculos tenham reputação tão ruim entre os fanáticos pela Bíblia, já que os horripilantes efeitos especiais dependem, para impactar, da compulsão decididamente cristã da plateia de se colocar no lugar de seu semelhante. Mas Kevin havia descoberto o segredo: não só que não era real, mas também que não era ele. Com os anos, vi Kevin assistindo a decapitações, estripações, desmembramentos, empalações, crucificações, escalpos e olhos sendo arrancados e nunca o vi piscar um olho. Porque ele tinha sacado o macete. Se você não se identifica, o horror e a sanguinolência são tão desconcertantes quanto ver sua mãe preparando um estrogonofe. Portanto, do que exatamente estávamos tentando protegê-lo? O lado prático da violência é geometria rudimentar, suas leis, as mesmas da gramática. Assim como a definição escolar do que é preposição, a violência é qualquer coisa que um avião pode fazer a uma nuvem. Nosso filho tinha um domínio acima da média tanto de geometria quanto de gramática. Havia muito pouco em Coração valente — ou em Cães de aluguel, ou em Brinquedo assassino — que Kevin não era capaz de ter inventado ele mesmo.”

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