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Um filme para Nick

novembro 10, 2011 11:18 pm Deixe um comentário Go to comments

(Nunca sei se é Um filme para Nick ou O filme de Nick. Mas vamos ao que interessa, o filme, de ou para Nick)

Wim Wenders interrompe as filmagens de seu próximo título, Hammett (1982), e, com aquele jeito generoso, viaja à Nova York para ver Nicholas Ray. Um Nicholas Ray que urra as ondulações de uma sirene policial ou de um carro dos bombeiros, enquanto está deitado na cama: um exercício de desabafo, imagino, contra a preguiça de ter que levantar dali em seguida. Ele está cansado, tosse a ponto de arrebentar os pulmões — mas fuma um cigarro atrás do outro. O olhar fixo num ponto qualquer inspira um certo desconforto em Wenders: Ray vai morrer em breve. Mas Ray não tem medo nenhum. Ele esnoba a morte. Adora a mentira. Adora a envergadura emocional de uma verdade dita após um catálogo de mentiras.

É impossível separar o espontâneo do ensaiado em Um filme para Nick (1980; 4/5). É um documentário sobre os últimos momentos de Ray. E é também uma ficção inscrita nesse mesmo documentário: as imagens não as de um registro real; os planos são bem posicionados, alguém tem que dizer “start” e esse mesmo alguém tem que dizer “cut”. São tratadas, dirigidas por Wenders. A estadia de Wenders no apartamento de Ray é ao mesmo tempo roteirizada e vivida. Aqui, o absurdo da experiência de viver e morrer é capturada em película e é também inventada de novo nesta mesmo película — e, Nick sempre soube, Wim naquela época talvez não, o cinema dá conta das duas instâncias, a que se diz real e a que se diz mentira.

Enquanto Ray, que mal consegue levar um cigarro à boca, sofre com a montagem do seu filme comunitário-experimental We can’t go home again (1973), Wenders, imerso em reflexões espirituais, quer discutir a morte. O alemão não cultua o norte-americano. Ele o confronta, às vezes com reservas; acredita estar prejudicando ainda mais a saúde do velho homem com a sua presença ali.

Ray não liga. Ray termina a vida com a solenidade dos créditos finais de um filme que copia a vida. The end. Luzes acesas. Morrer, como o fim de um filme (bom ou ruim), é apenas mais um desses rituais necessários, absurdos, sim, e inadiáveis.

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