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Horizonte de glórias/No silêncio da noite

novembro 3, 2011 12:44 am Deixe um comentário Go to comments

Encerrei o meu dia de (plantão) de finados com a retrospectiva O cinema é Nicholas Ray, lá no CCBB. Eis o que vi por lá — o momento é de fome, muita fome, sono, muito sono, a poucas horas de uma quinta-feira que vai condensar dois dias de trabalho:

Na sessão, um sujeito começou o filme, Horizonte de glórias (1951; 2.5/5), todo falante — à minha esquerda, para o meu desespero; depois de um quarto de projeção, num 16mm trepidante, (ele) estava caindo pelas tabelas de tanto sono. Atrás, também à minha esquerda, uma senhora papeava com a colega o tempo inteiro — ah, meu ouvido esquerdo… Terminou o filme ainda tagarelando, acho que de frustração. Realmente, esse aqui, um título de guerra pouco inspirado e interessante, nem parece um produto de Ray.

É, na verdade, um filme de John Wayne: com aquele ar de arrogância e grandeza, ainda mais na carne de um personagem igualmente mandão, o major Daniel Kirby, ele toma o filme para si. Temos que ver inúmeras batalhas aéreas, alguns pilotos sendo alvejados gravemente e diálogos técnicos (decoradinhos) para chegar ao que realmente interessa: um relato sobre as agruras de quem precisa comandar um corpo de fuzileiros nervosos, famintos, que enfrentam o medo da morte e a imensa vontade de voltar para casa todo dia.

Incrível como, em poucos minutos de tela de No silêncio da noite (1950; 4.5/5) — apresentado em DVD, já que a película ficou presa na alfândega –, Dixon Steele (Humphrey Bogart), um roteirista abrasivo, com feições de quem está louco para esganar pescocinhos alheios, já simulava, numa telinha da minha cabeça, meus personagens solitários favoritos do cinema: Travis Bickle, Harry Caul — o motorista-dublê de Drive, finalmente. Dix não emplaca um script decente — de sucesso — desde a Segunda Guerra. Quando surge uma oportunidade, de adaptar o que seria “um épico”, ele se faz de esnobe; pede que uma balconista vá até sua casa e leia o material de origem — ou resuma em descrições simples –, um livro ruim, para ele.

Após terminar a interpretação, a jovem é estrangulada e largada na estrada. Ele é o suspeito número um, e age como culpado; ceifou muita gente em seus textos, e fala disso com certo orgulho, os olhos esbugalhados, as mãos travadas no ar. Como seu agente diz à vizinha, Laurel Gray (Gloria Grahame, musa), que se apaixona por ele na sequência do crime, ele é como dinamite: de vez em quando, explode sem aviso. Laurel, mesmo amedrontada e desconfiada, parece saber com quem está se metendo: um sujeito de pensamentos inescrutáveis, que se esconde atrás de frases cínicas e tiradas divertidas. O mais amargurado dos homens.

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