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Minha Mostra

outubro 30, 2011 11:17 pm Deixe um comentário Go to comments

Já chamo só de Mostra (Internacional de Cinema em São Paulo) porque foi, de verdade, especial. Não por causa das projeções atrasadas — que, às vezes, nem aconteciam –, dos paulistanos estressados nas filas e bilheterias, do projecionista angustiado da primeira sessão, protelada e por fim exibida sem legendas, de Habemus papam, que gritou “calem a boca!”, em resposta às manifestações nervosas da plateia, e depois remendou com um grito de “desculpa!”; nem pela moça da organização que, ao ser perguntada sobre a chegada da cópia de Caverna dos sonhos esquecidos, disse para uma colega que Caverna do dragão (sim, aquele desenho sinistro) estava, por enquanto, cancelado. Não por essas coisas.

6 (primeiros) dias, na companhia de outros aficionados, 23 filmes inéditos. 24 com a cópia digital e restaurada de Taxi driver, aquela de Berlim. Vi o filme da minha vida na telona, quase que sussurrando as falas decoradas e cantarolando a trilha junto com De Niro e Herrmann; e sentindo uma sensação completamente nova com a obra-prima de Scorsese. Pela primeira vez, via o título com outras pessoas — a maioria cinéfilas. E elas riram quando Travis chama Betsy para sair de um jeito brusco, inadequado — eficiente, sim. Riram quando ela diz que seu disco favorito é um do Kris Kristofferson. E outras vezes também: a primeira aparição de Sport (Harvey Keitel, num de seus poucos papéis vestidos), dançando sem tirar os pés do chão, Travis conversando com Palantine em seu táxi sem saber nadinha de política.

Mas ficaram caladas, deixando um murmúrio perturbado no ar, quando: Sport enumera as atividades sexuais de Iris (Jodie Foster, desde pequena com ar confiante), Iris entra num quartinho de hotel barato com Travis, Travis diz que quer tirar a garota daquelas esquinas sujas e mal frequentadas, comentários racistas saltam do roteiro de Paul Schrader, Scorsese observa a silhueta da esposa, que o trai, e pergunta a Travis se ele sabe o que uma .44 Magnum pode fazer ao rosto e às partes de uma mulher, e a catarse sangrenta, incontrolável de esguichos, berros, tiros. Sick, venal. Foi a minha catarse: vi no cinema. Pronto. Feito.

Fora isso — e isso tudo = 90% da viagem –, vi coisas muito boas (1 O garoto de bicicleta, 2 Era uma vez na Anatólia, 3 The day he arrives), coisas muito ruins (1 As ondas, 2 Em algum lugar esta noite, 3 A ilusão cômica), andei no metrô de São Paulo (a estação Alto do Ipiranga parece saída da trilogia Fundação, do Asimov), caminhei um bocado na Augusta, Paulista, Pamplona, Frei Caneca.

Na próxima edição, quero a Mostra por inteiro — mesmo sem Taxi driver.

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