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O festival de Hoje

Bom, para quem mora aqui na capital desse país varonil, a época do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é sempre a melhor época — melhor e única, na verdade — do ano. E a edição 44 veio cheia de mudanças, que andaram pipocando na imprensa nacional sobretudo por causa da derrubada do ineditismo. Pra mim, a coisa toda foi ainda mais agitada: logo no primeiro dia da mostra competitiva, meu rim esquerdo resolveu me aporrinhar, perdi Trabalhar cansa — olha a ironia –, parte da (integral, extenuante e, por fim, recompensadora) cobertura, mas fiquei firme e forte até o fim, mesmo com uma pedrinha de 0,3cm incomodando meu juízo. Abaixo, mini-reviews tardios sobre os longas, na ordem em que foram projetados na tela do Cine Brasília:

As hiper mulheres, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro – 3/5

Um dos não inéditos, o doc (legendado) foi mostrado em Gramado e aqui só levou o prêmio de melhor som. A premissa é angustiante: no Alto Xingu, a única índia que domina o ritual feminino Jamurikumalu está à beira da morte, enquanto jovens integrantes da tribo tentam aprender as canções que envolvem a festança. Mas a execução é leve, solidária às tradições indígenas, um registro que fornece um olhar de dentro — Takumã nasceu no Xingu — sem parecer doméstico, e de fora sem soar deslumbrado.

Trabalhar cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra – ?/5

É, esse eu não vi, mas deve estrear sexta.

Hoje, de Tata Amaral – 3/5

Mudei de ideia hoje cedo quanto à cotação, que seria mais baixa — ou, sei lá, talvez eu também tenha sido manipulado pelo lobby à Weinstein da promoção do longal. Denise Fraga como a protagonista desse filme-instalação-de-vídeo não faz grande coisa, não entrega uma atuação brilhante, mas, talvez como poucas saberiam fazer, ela exala um desespero contido, uma tensão comprimida em cada gesto, suspiro e fala. Ela é essa ex-militante ainda perturbada pela ditadura que se muda para um velho-novo apartamento em São Paulo — comprado com o dinheiro da indenização pelo sumiço do marido –, no ano de 1998.

E lá, nas primeiras horas da mudança, enquanto dois entregadores descarregam e organizam móveis e pertences, ela depara com uma aparição do seu homem. Em vez de simples planos sufocados, Tata usa as paredes do apê como telas de projeção e nelas lança réplicas de diálogos e reproduções de documentos e escritos de 30 anos atrás: um recurso que torna a grande DR dos dois uma discussão sobrenatural entre passado reprimido e presente liberal. Mas o desfecho, entregue à obviedade, é ordinário.

O homem que não dormia, de Edgard Navarro – 2/5

Dias antes do festival, quando entrevistei o diretor para uma matéria sobre o filme, ele me disse algo como: “Meu cinema é troncho, vagabundo mesmo. Entende o quero dizer por troncho?”. Eu disse que sim, que entendia, minha família de parte de mãe toda é baiana como ele e coisa e tal. Mas não tinha, não, pelo menos até o fim da sessão. Não vi o primeiro longa dele, Eu me lembro (sete Candangos em 2005), mas dizem que é dócil, bonitinho, felliniano — tratei de baixar. E todo mundo fala desse Superoutro, um curta cult dele.

Aqui, pelo menos aqui, não tem nada de dócil ou cult: é um fábula interiorana e interior (sobre um sujeito que não dorme e atormenta pessoas de um vilarejo) rebelde, desconjuntada, meio desequilibrada de ceticismo e pelejas pessoais que, na tela, bruxuleam com vivacidade enlouquecida. Se Cláudio Assis é o nosso Gaspar Noé, Edgard é o nosso Lars von Trier então?

Meu país, de André Ristum – 2/5

O novelão das oito à italiana de Ristum é um aborrecimento apátrida sobre um empresário (Rodrigo Santoro) que retorna ao Brasil para cuidar do enterro do pai. E, quando chega, descobre que precisa dar conta de um irmão playboy (Cauã Reymond) e uma irmã com deficiência intelectual (Débora Falabella) que ele nem sabia que tinha.

Tudo, tudo mesmo, posa de pessoal, mas o que se vê é um melodrama televisivo impessoal: a câmera se mete nas contendas familiares sem muito interesse, as atuações são unidimensionais e a ambientação é lavada de riqueza. É limpa, branca, pura, quase hospitalar — “é um país interno, que tá dentro dos personagens”, disseram diretor e cia. Aham.

Vou rifar meu coração, de Ana Rieper – 2.5/5

O doc foi o mais aplaudido pelo público, mas a crítica ficou dividida e a pesquisa sobre música brega levada a cabo por Ana fracassou bonito, sem levar nenhum troféu. Apesar de realmente divertido, com bons personagens — encontrados em municípios de Alagoas, Recife e Sergipe — e alguns depoimentos sinceros de Amado Batista, Odair José et al., a jornada não vai muito além de uma busca incessante por exotismo: gera risadas fáceis, antecipadas por histórias bizarras, e até manipula as reações do público — um certo casal gay de atores dança ao som do brega; uma prostituta classe C despe-se num quartinho mal iluminado de motel; o crime de Lindomar Castilho nem é lembrado, mas um espectador berrou “assassino”. Acho que Amado merece um filme solo, porém.

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