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Neve

setembro 14, 2011 2:11 am Deixe um comentário Go to comments

Não completei nem 1/5 de Neve, do Nobel de literatura Orhan Pamuk — desta bem acabada série de reedições em comemoração aos 25 anos da editora; antes, li e ganhei Desonra, de Coetzee, mas o do Pamuk é emprestado; e, sim, o adendo foi desnecessário, uma tentativa boba de provocar inveja –, e já tenho uma sensação angustiante depois de cada parágrafo completado — tanto que volto com medo de ter deixado passar alguma coisa, alguma letra, alguma vírgula, de não ter percebido a cadência quieta que envolve cada início e fim de frase.

(Som de alguém folheando um livro de 656 páginas)

Aí vai uma das extasiantes — e, repetindo, elas são muitas — passagens:

“Caiu outro silêncio entre eles, e Ka começou a entrar em pânico. Se as estradas não estivessem fechadas, ele teria pulado no primeiro ônibus que saísse de Kars. Sentiu uma súbita de desespero por essa cidade decadente e seu povo desamparado. Num gesto mecânico, voltou a cabeça para olhar pela janela. Por longo tempo, ele e Ipek ficaram contemplando a neve distraidamente, como se tivessem todo o tempo do universo e não se preocupassem com o mundo. Ka sentia-se impotente.

‘É verdade que você veio aqui para cobrir as eleições municipais e os suicídios?”, perguntou Ipek finalmente.

‘Não’, disse Ka. ‘Fiquei sabendo em Istambul que você e Muhtar tinham se separado. Vim aqui para me casar com você.’

Ipek riu como se Ka tivesse contado uma piada muito boa, mas logo seu rosto corou vivamente. Durante o longo silêncio que se seguiu ele olhou nos olhos de Ipek e percebeu que ela lia dentro dele. Quer dizer então que você nem se deu um tempo para me conhecer, seus olhos diziam a ele. Você não pôde nem dispor de alguns minutos para flertar comigo. Você está tão impaciente que não pôde esconder suas intenções. Não tente fingir que veio aqui porque sempre me amou e não conseguia me esquecer. Você veio aqui porque soube que estou divorciada, lembrou-se de como eu era bonita e achou que eu era mais acessível agora que vim parar em Kars.

Àquela altura Ka estava tão envergonhado pelo seu desejo de felicidade, e tão resolvido a se punir por sua insolência, que imaginou Ipek proferindo a mais cruel das verdades: o que nos liga é o fato de que ambos diminuimos nossas expectativas em relação à vida. Mas, quando ela falou, disse algo muito diferente do que ele imaginara.

‘Eu sempre soube que você daria um bom poeta’, disse ela. ‘Eu queria cumprimentá-lo pelo seu trabalho.'”

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