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A árvore da vida

A sessão terminou com uma certa exasperação no ar. Um silêncio meio violento, as cadeiras voltando às posições normais todas ao mesmo tempo, passos apertados, e um burburinho impaciente. A novela já acabou?, perguntou alto uma mulher, querendo ser ouvida por todo mundo: não sei se falando do que acabara de passar na tela ou ansiosa por Insensato coração. Que porcaria, disse outra. Deu pena do diretor.

Malick quis fazer (ou realizar, como gostam de dizer os auteur-driven, e eu sou um auteur-driven, mas não dele) o filme (ou tratado?) mais importante de todos os tempos. Um clássico — um DeMille com a humanidade de um Kazan. O filme mais lindo do universo — poxa, Cinzas no paraíso não é belo o suficiente? Deu no que deu: uma ambição tão desmedida (tão maluquinha) que o resultado é algo, sim, atraente, sim, bem executado (bem realizado, diria um auteur-driven dele), mas ingênuo, comum, pueril.

Previsível, até. Os primeiro 40 minutos — ou 50 ou 60, já não sei mais — são um desequilíbrio entre cenas familiares e, tente imaginar, os primeiros movimentos do Gênesis filmados pelo Darren Aronofsky brega de Fonte da vida. Mas a pretensão é do Kubrick de 2001. E eis o resultado: um eco doc especial BBC/Discovery Channel daqueles sem intervalos comerciais. Depois, a coisa melhora um pouco — antes de melhorar, tem uns dinossauros e a extinção dos dinos com a trágica aterrissagem do meteoro, coisa e tal: Malick em seu momento tosco à Peter Jackson de Um olhar do paraíso.

A árvore da vida (3/5 quase 2.5/5) é muito, muito menos mesmo do que parece. Promete o mundo. Entrega a já aguardada família branca e problemática não muito rica dos Estados Unidos dos anos 1950, três filhos, um é artista, outro é delinquente, o terceiro morre, a mãe que é uma santa (amem todos. cada folha. cada raio de luz, ela recomenda), um pai autoritário, rude, bruto (ser bonzinho não compensa, é assim que ele pensa), a mãe que não entende a morte do filho e faz uma prece a Deus, pergunta e não ouve nada, chora e não ouve nada, reclama e se contenta em achar que, sim, Deus é assim, é justo, dá e tira, cria e destrói.

Menos, menos. Falar sobre A árvore da vida é ótimo, recompensador, divertido. Ver a A árvore da vida é frustrante.

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