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Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas

Acho pouco provável que o cinema consiga ser mais puro e menos solene do que em Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (4/5), que finalmente chegou aqui em Brasília, via mini-mostra Em Cartaz (esse e mais cinco filmes), no CCBB.

Não vou arriscar dizer bobagens sobre o filme do homem, o tailandês Apichatpong Weerasethakul — ou apenas Joe. Aliás, não é necessário dizer muito: a naturalidade, a ausência de cerimônia entre o real e o espiritual chegam a tornar a fantasia rural uma experiência direta, como se Joe tivesse ido até à fazenda (ou ao latifúndio) do Boonmee e realmente acompanhado seus últimos suspiros de frágil resistência diante de uma lenta falência dos rins.

Na cena essencial — a que inclusive demarca diferenças entre o tom de Boonmee para o drama Mal dos trópicos, por exemplo –, que dá conta do resto da trama, o tio está à mesa com a cunhada, uma senhora que tem medo dos espíritos da floresta e odeia insetos e imigrantes que vieram do Laos, e um sobrinho. Daí, de repente, a mulher do agricultor se materializa — e causa espanto na irmã. E, da escada, sobe o filho do fazendeiro: um macaco enorme, de olhos que reluzem como dois diodos bem vermelhos. Fantasmas e humanos, velhos conhecidos, conversam como se se vissem todos os dias, no lugar de sempre — à mesa debilmente iluminada por algumas lâmpadas.

Sequências adiante, vem o diálogo brilhante entre Boonmee e sua esposa, a falecida Huay. O tio quer saber em que lugar precisa estar, depois de morto, para encontrar a mulher. Ao que ela diz: “O céu é superestimado. Não tem nada lá”. E depois completa (mais ou menos assim): “Fantasmas não pertencem a lugares, mas a coisas mais próximas, a pessoas vivas”.

Para uma sociedade ocidental aborrecida diariamente com as penitências do judaico-cristianismo, a espiritualidade de Apichatpong é um doce, leve alento.

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