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Meia-noite em Paris


Fazia algum tempo que eu não saía do cinema com pensamentos tão otimistas. Acho que, de uns tempos pra cá — de uns seis anos pra cá — acabei me acostumando a ver na tela — ou na ficção em geral — sempre o lado mais cru, objetivo e frio das coisas — e é esse o tipo de representação das coisas de que mais gosto, direto, sóbrio, sem firulas sentimentais. Isso explica a minha fascinação pela ficção científica: aquela visão quase sempre distanciada, desapaixonada da humanidade. Aí me vem este Meia-noite em Paris (3.5/5), com uma delicadeza que me pegou de surpresa: deixei a pré-estreia com uma sonolência gostosa, como que pedindo um tempo a mim mesmo, uma paciência com as pessoas, pedindo, eu acho, e isso é difícil de aceitar, pedindo uma chance para as emoções. Enfim, parece que saí acreditando… no amor. Ok, ok, isso foi bem piegas. Mas parece que saí assim mesmo, esperançoso — não de uma maneira individual, mas universal.

Então, chegou a sexta-feira, e com ela uma onda de impressões negativas: “não é isso tudo”, relativizei. Aqui e ali — nas caminhadas de Gil (Owen Wilson) com Adriana (Marion Cotillard) –, fui transportado para aquela aura quase insuportável de ternura do meu favorito do Woody Allen, A rosa púrpura do Cairo. Este e O atalante, do Jean Vigo, estão entre os filmes românticos da minha vida — e também ocupam o topo de uma listinha de títulos que preciso evitar ver de novo, que é para manter o pessimismo (wertheriano) em alta conta e o platonismo (autodestrutivo) longe, bem longe.

Enfim, o mérito de Woody é o sensível (e pouco cínico) tratamento do personagem masculino: o diretor exibe essa obsessão de Gil com um passado que ele não viveu — os anos 1920, com referências trabalhadas com leveza, sem afetação –, e eu me reconheci há alguns anos, quando tinha certeza de que tinha nascido na década errada. Quando tinha 15, queria ter 30; hoje, tenho 22, e queria ter 40. Ele já fez esse tipo de filme antes — Tudo pode dar certo tem um final até mais otimista que Meia-noite –, com um terceiro ato livre de cinismo, de autoparódia (ou autosabotagem, ou humor negro), e melado de singeleza. Nas últimas cenas, Woody Allen quis ser o Richard Linklater de Antes do pôr-do-sol. Soou deslocado.

Posso ver Meia-noite repetidas vezes, sem temer abalos ou sacolejadas. No máximo, um pequeno desconforto depois dos créditos finais. E só.

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