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Suzaku/Gente da montanha

Um lugar montanhoso, com fendas e ondulações tomadas por árvores frondosas, verdinhas e úmidas. Nara, cidade natal da cineasta Naomi Kawase, fica bem longe de Tóquio, a 500km da capital, e aprisiona a natureza em toda a sua fragilidade; da mesma maneira, abriga também um povo tímido, delicado, que se move e fala na velocidade das coisas naturais, lentamente, calmamente. Naomi esteve em Brasília sábado passado, conversando com o público depois da exibição — única e que eu perdi — de Hanezu, seu último filme, que inclusive esteve competindo pela Palma de Ouro em Cannes. Aliás, ela é figurinha fácil do festival, já foi premiada duas vezes por lá e indicada outras três. Ontem, na abertura da mostra no CCBB, deu pra ver Suzaku (4/5), que levou o Caméra d’Or (para filmes de estreia).

O drama acompanha o esfacelamento de uma família local, enquanto observa a repercussão em torno da construção de um túnel que dá para uma estrada ferroviária. Uma meditação triste, silenciosa sobre a passagem do tempo — os personagens, em planos estáticos, fotográficos, parecem tentar apreender cada fração de segundo, com semblantes algo angustiados. O desenvolvimento da vida e das coisas humanas é inevitável, não pode ser evitado. E Kawase arrisca ir contra o progresso urbano ou as metamorfoses familiares com um olhar sobre a relação do homem com a natureza: uma ligação invisível e permanente.

Antes, passou Gente da montanha (3/5), rodado após Suzaku. A diretora retorna a Nishi Yoshini, vilarejo de Nara, para contar histórias reais dos habitantes, em estilo documental, ela com a câmera na mão, andando pra lá e pra cá entrevistando pessoas. Ora caseiro, ora puramente sensorial, o registro capta, na maior parte do tempo, declarações nostálgicas ou esperançosas de pessoas já perto do fim da vida. Idosos que querem ter a juventude de volta. Que querem morrer para reencarnar o quanto antes.

Entre os vários relatos, o último é o mais tocante: um senhor franzino, desdentado, que, ele próprio diz, sacrificou a própria vida para ficar ao lado da mãe. Quando jovem, gostava de uma garota. Mas o relacionamento não foi longe, ficou em carícias vacilantes e algumas cartas. Não deve ter sido uma vida muito interessante. Mas, para Naomi, é, sim.

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  1. dezembro 19, 2011 7:50 pm às 19:50

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