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Os agentes do destino

Cheguei ontem de Pirenópolis. Estive lá cobrindo a terceira Festa Literária (Flipiri) — pelo nome já dá pra sacar que é uma Flip em escala regional; bem aconchegante, agradável, leve — mas a cobertura não foi leve, não. Foi a segunda viagem a trabalho no espaço de um mês. Na primeira quinzena de abril, fui para o Rio de Janeiro fazer o lançamento de Velozes & furiosos 5: Operação Rio (3/5), que de início odiei e depois foi crescendo na minha cabeça, foi ficando menos barulhento e mais divertido. Isso também acontece com bobagens de Hollywood. Não é só com filme bom, pelo jeito. Fiquei uns dias sem ver filme nenhum — desde a cabine de Ricky (3/5), na última segunda. Então, gastei minha hora de almoço de hoje no plantão (!) lendo coisas de Cannes, como sempre, pelo blog do Merten e pelos posts longos e rigorosos do Mike D’Angelo, que conheci pela indicação de um amigo cinéfilo ano passado. (Uma pena que eles — o amigo e o crítico — tenham adorado Dente canino. Eu odiei.)

Mesmo bem cansado e felizmente dispensado mais cedo — era isso ou ter de cobrir um show hoje à noite –, rumei para uma sessão de fim de tarde de Os agentes do destino (2/5), mais uma adaptação insatisfatória da obra de Philip K. Dick. É sobre um candidato ao senado, David Norris (Matt Damon), de passado turbulento mas conhecido por sua autenticidade, que se vê perseguido por sujeitos vestidos todos iguais, versões bestinhas dos agentes da Matrix. Quando você reclama da conexão da internet, lamenta as chaves esquecidas no balcão da loja ou derruba o café na mesa, saiba — aliás, é melhor não saber — que esses homens estão interferindo no seu destino, colocando você de volta no “plano”, na ordem em que as coisas deviam estar. Só que, na vida de Norris, o desvio de rota é o acaso. Ele se apaixonou pela bailarina Elise (a linda e underrated Emily Blunt), o que não está exatamente de acordo com os planos de quem escreveu os destinos de todos os habitates da terra: o presidente (chairman, em inglês). Deus? Philip?

A história é ótima, afinal, foi escrita pelo caótico Philip. Sou fã dele, mesmo tendo lido só dois livros (O homem duplo e Ubik): narrativas delirantes que brincam o tempo todo — brincam mesmo, com humor peculiar porque angustiante — com as noções que separam realidade e imaginação e sonho. Ainda acho Minority report e Blade runner as melhores adaptações.

Esse Adjustment Bureau é um aborrecimento sem fim: um sci-fi romântico, cômico quando não devia. Eu queria um sci-fi romântico, sim, mas desapaixonado, sem as falsidades sentimentais das comédias românticas — aqui, elas sobram. Se há algo de bom nele, é que deixa uma sensação sutil de que não precisa ser levado muito a sério — quase uma auto-sabotagem, eu acho. (E, já ia me esquecendo, tem o ótimo John Slattery, um dos agentes, que praticamente repete o Roger Sterling de Mad men, só que sem os cigarros e drinques.)

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