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Filme socialismo

Do meio pro fim, fiquei desesperado: queria ter uma caneta para poder anotar algumas coisas — na mão mesmo, nem precisaria de papel. Esperei chegar até à rodoviária. Comprei uma caneta Bic — paguei 1 real; paguei um precinho absurdo. Rabisquei tudo que deu para lembrar no panfleto do CCBB: frases pela metade, uma pequena sinopse de cada um dos três atos e as impressões que ficaram quando a sessão terminou — bem antes disso, umas 15 pessoas deixaram Godard falando sozinho.

Acho que ele pensou: “Se vou fazer um filme político nos dias de hoje, então preciso comunicar o que penso com uma linguagem de hoje”. Só que Godard não quer ser entendido tão facilmente: filme falado em um bocado de línguas — francês, principalmente, mas também alemão, um pouco de inglês e italiano e mais um monte –, mas com legendas esparsas, que cobrem acho que nem 1/3 do que é dito. Não dá para entender mesmo. Então sobram duas, três ou quatro palavras, sempre sem pontuação, às vezes ligadas por um verbo precário.

No primeiro ato — um O homem com a câmera nos tempos do hyperlink –, imagens pixeladas, flagrantes recortados de um documentário amador ou de um vídeo caseiro, sem tratamento — parecem vídeos do YouTube, de baixa qualidade, registros de câmera digital ou celular. Áudio ruidoso, que às vezes não acompanha os planos. Frames vacilantes. Um cruzeiro viaja pelo Mediterrâneo e você escuta da boca das pessoas coisas improváveis de quem está tão entregue aos prazeres arriscados do jogo, ao conforto de um hotel com vista para o mar infinito, às refeições fartas, àquela atmosfera de um shopping center abundantemente iluminado e colorido, à (falsa) sensação de segurança de ter nascido, de morar no supostamente desenvolvido continente europeu (cuja identidade, cada conjunto de palavras avisa, foi construída por africanos e árabes): e elas dizem “não existe Deus”, “para Nações Unidas importa o crime”, “pobre Europa humilhada pela liberdade”, “AIDS instrumento para exterminar negros”, “Islã oriente ocidente”.

Todos são capitalistas, mas parecem inclinados a dizer o que todo mundo já sabe, que a Europa é um continente falido: “Hollywood coisa estranha inventada por judeus”. A América venceu. Vem a segunda parte. Making of de um filme amador, tipos afetados — a jovem que lê Balzac no posto de gasolina, acompanhada de uma lhama. Hipsters? Um garotinho maestro, que pinta como Renoir. Na terceira, a montagem da primeira seção retorna — agora numa profusão de referências; “tragédia e democracia casaram na Grécia”. Revoluções e guerras são sempre iguais, cíclicas, só mudam de data e endereço. Os mitos gregos e egípcios são velharias. A religião é desumana.

Filme socialismo (4/5) é um Godard precisamente moderno, mas com o olhar de um Eisenstein. Um filme soviético na era do YouTube.

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Categorias:Cinema Tags:, ,
  1. Yale
    maio 8, 2011 11:04 am às 11:04

    Puxa, Prevísivel! Eu não entenderia o filme sem a sua avaliação. Obrigada!!!

  2. felipelahm
    maio 8, 2011 1:14 pm às 13:14

    hahaha ajudei? acho que compliquei mais…

  3. geo
    maio 9, 2011 2:07 pm às 14:07

    ‘um filme soviético na era do youtube’ define bem e em vários níveis. vc tira o cara do grupo dziga vertov e põe um celular na mão dele. o problema é que esse cara é o godard e ele não entrega nada facilmente.

  4. Felipe Moraes
    maio 9, 2011 4:02 pm às 16:02

    hahaha verdade, Geo. com o Godard, nada é tão “previsível” hehe

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