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Cópia fiel

Saindo da sessão, lotada de mulheres de várias idades — quem sabe atraídas pela feminilidade do pôster, com a Juliette Binoche segurando um brinco chamativo numa das mãos –, uma adolescente diz a uma amiga: “Mas, poxa, ela nem conhecia aquele cara, como é que depois eles estavam casados, hein?” Durante a exibição, acho que vi dois ou três casais desistindo, talvez igualmente incomodados pelos desvios ousados de Cópia fiel. Quem ficou até o fim caminhou para fora dali um pouco calado, um sussurro sem importância aqui, um murmúrio risonho ali.

Kiarostami apresenta duas pessoas que acabam de se conhecer, um escritor, James Miller, e uma mulher francesa, Elle, amante de antiguidades. O livro do autor, Copie conforme (o título original), dá dignidade às pobres reproduções e réplicas de obras de arte: segundo ele, numa argumentação simples, sem pedantismo, se somos tocados pela cópia como somos tocados pelo original, então os dois produtos têm o mesmo valor para a nossa percepção das coisas.

Elle leva Miller ao vilarejo de Lucignano. E lá, juntos, eles visitam um museu, tomam café, tomam um vinho local — ela gostou, ele odiou –, posam para fotos num casamento de dois jovens, e, pouco a pouco, na mesma proporção em que o papo sobre o valor real de cópia e original vai de educado a exasperado, agem como se conhecessem há pelo menos duas décadas, se fossem casados há 15 anos e se estivessem numa pequena crise conjugal — ele tem péssima memória, parece desapaixonado, enquanto ela é nostálgica e lamenta que o relacionamento com o pai de seu único filho tenha se desgastado tanto nos últimos cinco anos.

Como andei lendo por aí, é um Antes do amanhecer de meia-idade ou um Antes do amanhecer com ousadias de filme experimental. Os planos longos, os diálogos descansados e os conflitos que parecem extraídos de universos diegéticos alheios deixam qualquer um meio desorientado, meio sem saber o que pensar por alguns minutos — durante e após a projeção — ou até ofendido pela maneira com que Kiarostami conecta as vidas de Elle e Miller — sem flashback explicativos, sem sequências solidárias com a lógica das narrativas convencionais.

Deixei a sala com uma sensação esquisita de liberdade. Ou de que nunca tinha visto tanta liberdade numa tela tão grande.

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  1. Geo
    abril 25, 2011 2:49 am às 2:49

    oi felipe.

    vc sabe que eu tento escrever sobre cinema, mas não leva isso em consideração quando ler o que tenho pra dizer sobre cópia fiel.

    eu tava lá e era dia do meu aniversário de casamento. 5 anos. cabine de cópia fiel às 10h30 da matina. o filme segue seu rumo e de repente a juliete se transforma naquela esposa nostálgica e sentimental. um desabafo enorme, com o estranho que podia muito bem ser o tal marido. mas no final pouco importa. talvez os casamentos nasçam pra terminar daquele jeito: metade querendo ficar e consertar as coisas e metade consciente de que não vai dar mais. a cópia fiel de um relacionamento… um tiro no coração esse mote do kiarostami.

    esse, por enquanto, foi meu último aniversário de casamento.

  2. Felipe Moraes
    abril 25, 2011 11:57 am às 11:57

    Poxa, Geo, muito sincero isso que você disse.

    Não tenho uma experiência pessoal que se conecte de maneira tão clara e profunda com o Cópia fiel, mas, do meio pro fim, deu pra sentir meio que uma angústia naquela encenação toda, de que aquilo parecia muito autêntico, mesmo sabendo do absurdo daquela discussão.

  3. geo
    abril 25, 2011 12:50 pm às 12:50

    angustia porque é muito aquilo mesmo.um lance de nostalgia e rancor misturados a uma certa falta de energia pra continuar tentando.

    enfim, eu não sou a juliete, mas acabei vindo aqui no previsível apenas pra desabafar. estranho é que apesar de tudo eu ainda acho que casar é legal, pelo menos enquanto dure.

    😐

  4. Felipe Moraes
    abril 25, 2011 1:08 pm às 13:08

    sinta-se à vontade pra desabafar aqui, geo 😀

    sobre casamento, eu ainda não tenho opinião. acho que tenho um pouco de medo disso, talvez por causa dessa finitude

  5. fevereiro 7, 2013 3:23 pm às 15:23

    Eu ainda saio do filme com impressões nada precisas sobre o filme. De uma absurdez que eu ainda não consegui decifrar. Talvez seja esta a sensação ou a força do trivial, um mistério que acreditamos desvendar e no entanto, saímos só com isso, impressões. O filme é belo e violento, por tanta simplicidade e profundidade.

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