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Diário da queda

Diário da queda. De Michel Laub. Pra mim, fácil, fácil mesmo, o melhor livro do ano. Peguei um exemplar novinho com uma amiga do jornal, despreparado para o que iria ler: uma ficção breve mas densa, que me fez viajar de volta para o ano de 2008, quando comecei a ler Kafka, quando li Carta ao pai e, a cada viagem de ônibus que fazia de volta pra casa, com o livro nas mãos, perto da minha quadra, via-me naquelas páginas todas.

Não sou judeu — sou de origens cristãs. Mas imagino que aquele fardo que tanto aflige o judeu — a sensação de que o mundo está contra ele, de que ele foi, é e sempre será indivíduo de um povo odiado; pelo menos ele é domesticado a se sentir assim, acredito — é, de certa maneira, semelhante ao que causa um cansaço permanente nos ombros do cristão: a rigor ele, também, é ensinado a pensar que todas as pessoas são ruins, e, ele, “justo”, “sal da terra”, “luz do mundo”, deve ser aquele quem deve ensiná-las o caminho da salvação, ensiná-las que o pecado conduz à morte — ou mesmo ensiná-las a crer que o pecado existe –, que o não reconhecimento do sacrifício de Cristo significa aderir ao Diabo, aos seus asseclas e ao fogo eterno.

O livro de Laub, episódico, dividido em pequenos verbetes, narra a trajetória de um garoto de existência esfacelada: vive à sombra da história do avô, sobrevivente de Auschwitz, um velho que passou o resto de seus dias escrevendo um diário incomum. E não há nenhuma menção ao campo de concentração nesses escritos, nem mesmo um nome sequer. O garoto cresceu sem entender muito bem como o sofrimento de seu povo poderia se relacionar à sua vida e ao relacionamento com o pai, um homem que leu os cadernos de seu pai estupefato, sem entender a falta de registro dos horrores da guerra. Ou melhor, por que esse sofrimento deveria ter conexão com a sua vida e o relacionamento com o pai.

O narrador, que perpassa a sua adolescência e os anos atuais — ele aos 40 anos, escritor beberrão, no terceiro casamento e com um pai envolvido pelo Mal de Alzheimer –, tece uma investigação memorial (e emocional) de si mesmo, do pai e do avô. Por fim, ele decide — ou não decide, cabe a você ler para conferir — se leva consigo os paradigmas do judaísmo, de Auschwitz e os traumas de seu povo, que ele aprendeu a sentir sem nem mesmo ter sido vítima do holocausto, adiante.

Diário da queda é doloroso. Mas as últimas páginas são edificantes — para judeus e cristãos e não judeus e não cristãos.

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  1. abril 2, 2011 12:44 am às 0:44

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